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Colunistas Luiz Mendes

Inclusão do discurso nas escolas

Por: Luiz Mendes, economista pela PUCMG, Pós-Graduado pela FGV, especialista em mídias digitais e membro do Instituto Meta Social, que há mais de 20 anos promove a inclusão social e Head Digital do Projeto Universo PCD

Ao conversar com um amigo, pai de um adolescente de 19 anos com T21 e que passou em dois vestibulares para Pedagogia, me peguei refletindo sobre a realidade das escolas onde o meu filho Lipe, também com Down, de 15 anos, estudou e estuda. No início da vida acadêmica do Lipe, tivemos de tomar uma decisão: se iríamos aceitar as primeiras palavras que escutamos, e que se baseavam apenas na deficiência, ou se iríamos olhar para ele por outra perspectiva, a do seu potencial. Esta, convenhamos, foi uma decisão fácil e rápida, mas que se mostrou de difícil aplicação, e isso infelizmente nos mostra o quanto ainda temos que lutar pela inclusão nas escolas. Foram anos arranjando meios de driblar a genética, de decisões que não poderíamos demorar a tomar, pois o tempo passava e ele crescia.

Inclusão no jardim é trivial, mas o desenvolvimento acadêmico é essencial para que ele progredisse na vida escolar. Sabemos que pessoas com Síndrome de Down podem aprender muito, frequentemente nos surpreendem, demonstrando alguma habilidade que não esperamos delas. Bem, elas podem aprender, mas é bem difícil se nós não ensinarmos e apresentarmos as ferramentas para o seu desenvolvimento. É preciso ensinar a ler, a escrever, conhecer os números, compreender as quantidades, fazer operações matemáticas, atravessar a rua, se ensinarmos, eles invariavelmente aprendem. Mas o que vimos até hoje, na maioria dos casos, é que as escolas não estão preocupadas em ensinar. Entregam uma inclusão que eu chamo de “inclusão do discurso”, ao exigirem que as crianças é que devem se preparar para a escola, e não o contrário.

Encontramos inúmeras instituições que não queriam questionar as suas formas de ensinar, colocando-se em pedestais inquestionáveis de sabedoria. Foram várias as vezes que nos deparamos com situações em que o Lipe teve de repetir algum aprendizado e os professores fizeram exatamente da mesma forma, esperando resultados diferentes. E estas mesmas escolas ainda se recusam a enfrentar o preconceito que estas práticas geram e que elas negam de pés juntos. É assustador quando eu penso que escolas como estas são as que estão preparando todas as crianças. Como eu posso me sentir ao saber que são estas escolas que ensinarão os meus dois filhos com ou sem deficiência? Para isso é necessário que os pais deixem de acreditar nesse tipo de absurdo e exijam educação de verdade para os seus filhos, T21 ou não, Autista ou não, típicos ou não. Pensem em uma coisa. Se a criança tem um problema com matemática, logo nos pedem para procurar uma aula de reforço. Se tem algum problema de comportamento, imediatamente somos solicitados a procurar especialistas para ser medicado. Mas essas escolas, apesar de falarem, incansavelmente, nas suas publicidades que investem e valorizam as habilidades dos seus alunos, eu nunca conheci um pai que tenha sido chamado na escola porque o filho está indo muito bem.

Então, o que encontramos é que, no fundo, o que sempre falta a nós pais e aos educadores, é a certeza de que qualquer criança pode aprender. Todas! Desde que lhes sejam oferecidas oportunidades e condições materiais e pedagógicas necessárias. E isso passa longe do conhecimento específico da deficiência. Saber que uma criança com T21 possui um cromossomo a mais, se tem um transtorno de déficit de atenção que pode ser hereditário, não faz a menor diferença na sala de aula. Da mesma forma que quando chego em casa beijo os meus dois filhos e o carinho não vai para o que tem Down e para o que não tem. Nas escolas não pode existir matemática para Síndrome de Down, nem história para o Autista. Deve existir matemática, história e aprendizado para todas as crianças. Assim, os valores das escolas devem ser pensados para o potencial de aprendizado de todos e de como alcançá-los em cada um, em cada criança, entendendo as suas diferenças e não apenas pela sua definição genética. Exatamente como na minha casa, onde não existem valores diferentes de acordo com a cor dos olhos de cada filho. Até por que, ambos puxaram a mesma cor dos olhos da mãe!

 

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