null
Cultura

Perfil de Ricardo Ferraz, cartunista que usa o humor na luta pela inclusão

Por: Cida Farias (Fotos: Divulgação)

Por meio dos seus cartuns, um dos maiores nomes da luta pela inclusão no Brasil, denuncia as dificuldades do dia a dia das pessoas com deficiência

Capixaba de Cachoeiro de Itapemirim/ES, Ricardo Ferraz é daqueles que transforma sonho em realidade. Ele nasceu em 1952 e, aos 5 anos, contraiu poliomielite, o que o deixou preso a uma cama, sem contato com crianças de sua idade. Foi no desenho que descobriu um ótimo passatempo. Com dedicação e amor à arte, rabiscava em papel de embrulhar pão. Hoje, seus cartuns são conhecidos mundialmente, mostrando com ironia o cotidiano das pessoas com deficiência, as dificuldades de locomoção, as atitudes e preconceitos. Ferraz começou a trabalhar na infância, engraxando sapatos e, depois disso, exerceu várias atividades, de agitador cultural a diretor de penitenciária. Como militante de movimentos populares, foi convidado, em 1981, a articular a fundação da Associação Capixaba de Pessoas com Deficiência (ACPD), lugar onde encontrou uma fonte inesgotável para focar na questão das PcDs por intermédio de seus cartuns. “Foi um grande desafio para mim, porque eu não tinha uma consciência política sobre o tema, além disso, possuía muito complexo da minha deficiência. A visão errônea da sociedade, que nos conhecia como pedintes, aleijados, entrevados, paralíticos, entre outros adjetivos pejorativos. Fiquei chocado diante de um quadro associado à pobreza social e cultural, com extremos de abandono e superproteção”, conta ele, lembrando que 1981 também foi escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Ano Internacional da Pessoa com Deficiência.

Canal de denúncia à sociedade

Vale dizer que, quando se especializou em inclusão, o artista já era cartunista de publicações da prefeitura da sua cidade. “Também sou servidor público municipal há mais de 35 anos e, na época, trabalhava em um jornal do município. Entre diversas tarefas, fazia cartuns sobre vários temas e talvez tenha me tornado o primeiro cartunista a abordar, de forma crítica e humorada, a problemática das pessoas com deficiência por meio dos cartuns. Era a única alternativa como canal de comunicação para denunciar aquele flagelo humano, que, para mim, foi uma fonte de inspiração. E levar isso ao conhecimento da sociedade”, destaca. O cartunista explica que encontrou uma grande lacuna nas artes gráficas, já que, quando via um cartum sobre pessoas com deficiência era recheado de preconceitos e as conhecidas piadas de salão, como “Você conhece a piada do ceguinho? Do aleijadinho? Do mudinho?”. Porém, acreditando na força da imagem, ele começou a abordar as barreiras físicas e humanas enfrentadas pelas PcDs no seu dia a dia. “Eu queria denunciar essas barreiras, mas sem dramalhão mexicano e encontrei no humor uma forma de falar sério, mostrando que a deficiência não estava nas limitações físicas e sim na sociedade, no preconceito e na ignorância.”

Reconhecimento nacional e internacional

Outro grande marco na carreira do artista foi a participação com vinhetas animadas na Rede Globo, no chamado “Plim-Plim”, em 2001. “Entre tantos concorrentes do Brasil, a emissora selecionou 20 desenhos e o meu estava lá. Fui o primeiro capixaba a ter um desenho na Globo e a primeira vinheta temática na TV, numa época em que não se falava em acessibilidade. Dos sete concursos, venci quatro com outros temas. Para mim, foi uma das maiores conquistas pelo reconhecimento em todo o país”, comemora. Os desenhos do cartunista também são utilizados em palestras por meio de agências da ONU em todo o mundo. A iniciativa partiu da brasileira e militante do movimento nacional e internacional das pessoas com deficiência, Rosangela Berman Bieler. O artista também percorreu o Brasil e o exterior com a exposição itinerante “Visão e Revisão. Conceito e Pré-Conceito”, que completou 30 anos. Hoje, professor de desenho artístico na cidade de Cachoeiro de Itapemirim (ES), ele acredita que a arte remove montanhas e continua sonhando com uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Comente

Clique aqui para postar um comentário

Receba as edições impressas da Revista PCD na sua casa!

Newsletter

Cadastre-se e fique por dentro das novidades!

Quer receber as novidades sobre o universo PCD no seu e-mail? Cadastre-se abaixo:

/* ]]> */