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Com 5% da visão, Gustavo Mendes vai disputar Mundial de Tiro com Arco

Brasiliense é o único deficiente visual brasileiro que disputa a modalidade em alto rendimento

Silêncio, foco e concentração. Após uma breve inspiração, Gustavo Mendes solta a flecha em direção ao alvo a 30 metros de distância. Faça chuva ou faça sol, o atleta de tiro com arco treina diariamente na área externa do Clube do Exército, ao lado de outros esportistas. Essa seria apenas mais uma história do cotidiano do esporte se Gustavo não fosse o único deficiente visual competindo em alto rendimento na modalidade no país. Nascido e criado em Brasília, o rapaz de 28 anos foi chamado pela Seleção Brasileira para participar do próximo Campeonato Mundial, na China, em setembro.

Para acertar o alvo, ele se posiciona sobre uma base de madeira que determina a distância entre seus pés. Além disso, o jovem utiliza um tripé que possui um pino de metal onde apoia o nó dos dedos para centralizar o tiro. A assistente técnica Carolina Maia explica que todos os atletas da modalidade precisam de estabilidade para atirar e que esses artifícios ajudam Gustavo a fixar sua posição.

“Oito a nove horas” é o tipo de anúncio utilizado por ela para avisar ao arqueiro onde ele acertou o alvo. No caso, ele marcou oito pontos — cada círculo tem uma pontuação — na posição das nove horas de um relógio tradicional. Depois de atirar todas as flechas, ele caminha até o cavalete com o auxílio de uma corda no chão, pois não pode invadir o campo de visão dos outros competidores.

O atleta faz tudo sozinho, da colocação da flecha no arco à regulação da mira. “O ideal seria que alguém estivesse aqui o tempo todo me auxiliando, mas, como geralmente ficam dois técnicos para cinco ou seis atletas, fica meio impossível”, afirma Gustavo. Carolina ressalta, porém, que treinar a independência é essencial, pois, em uma competição, o técnico não pode interferir em nada antes do tiro.

Gustavo Mendes tem marca suficiente para ficar em quarto lugar no Mundial
Gustavo Mendes tem marca suficiente para ficar em quarto lugar no Mundial

 

Do futebol ao tiro

Gustavo já nasceu com dificuldade de enxergar, mas só percebeu a deficiência após alguns anos, quando foi perdendo cada vez mais a capacidade. Hoje, ele tem somente 5% da visão total. Mesmo assim, o jovem sempre manteve contato com o esporte — jogou futebol com os colegas até os 18 anos e, aos 20, entrou para a natação. Cinco anos depois, em setembro de 2015, conheceu o tiro com arco por meio de um arqueiro que também treina no Clube do Exército.

O atirador é formado em audiovisual, mas não quis permanecer na área. A dificuldade de encontrar um emprego em que não ficasse muito tempo parado foi o que motivou o jovem a se aventurar no esporte.

Desde abril de 2016, ele treina para participar de competições. “Sou muito competitivo, não gosto de ter um resultado pior do que sou capaz. E, se não for pra competir, eu nem treino”, conta. Em julho do ano passado, participou da seletiva para participar do Mundial e marcou quase 40 pontos a mais que o necessário para ser classificado, somando 438 pontos. Com essa pontuação, caso já estivesse na competição, teria ficado em quarto lugar.

A vida com obstáculos

Gustavo trata da deficiência visual com naturalidade — “aprendi a viver assim, tive que aprender” —, mas destaca a dificuldade de chegar aos treinos todos os dias. Assim como outros paratletas, o morador do Guará vai de ônibus ao Setor de Clubes Sul. O problema é que o veículo para do outro lado da avenida principal e ele precisa chamar alguém para auxiliar na travessia tanto na ida quanto na volta. Ele conta que, quando morava em Ceilândia, era ainda mais difícil, e o transporte lhe consumia quatro horas diárias.

No entanto, esse é apenas o início dos problemas diários. A pouca popularidade do esporte e a exclusividade de ser o único deficiente visual no país em alto rendimento na modalidade dificultam a obtenção de patrocínio. Por isso, Gustavo tem que arcar sozinho com os custos de todos os materiais necessários, que são, na maioria das vezes, importados e, consequentemente, muito caros. O arco que utiliza, por exemplo, é emprestado da Associação do Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe). “As flechas que tenho são minhas, mas elas não são de boa qualidade, estão velhas e não seguem os padrões do Mundial”, lamenta.

Além dos equipamentos, tais como flechas, gatilho, arco e bolsas, o atleta também tem de gastar com viagens, hotéis e inscrições para participar das competições — que são todas internacionais, pois não existe competidor de sua categoria no Brasil. A esperança é de que ele se classifique entre os três melhores no Campeonato Mundial de Tiro com Arco, marcado para Pequim, na China, a partir de 12 de setembro. Assim, Gustavo poderá ganhar da confederação uma bolsa que vai auxiliá-lo nesses investimentos.

*Estagiária sob a supervisão de Braitner Moreira

Link do vídeo: https://youtu.be/Uovj7R75kiM (Acesso em: 01/08/2017)

 

Por: Deborah Sogayar* /Correio Braziliense postado em 01/08/2017 07:15
Fonte: http://www.df.superesportes.com.br/app/noticias/mais-esportes/2017/08/01/noticia_maisesportes,62015/com-5-da-visao-gustavo-mendes-vai-disputar-mundial-de-tiro-com-arco.shtml (Acesso em: 01/08/2017)

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