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Def Leppard: vocal lembra acidente que amputou braço de baterista e cancelamento no 1º Rock in Rio

por Cauê Muraro, G1 21/09/201

Ao G1, Joe Elliot fala sobre momentos difíceis da banda de hard rock, como a morte do guitarrista Steve Clark. Banda toca no festival nesta quinta e no SP Trip no domingo.

Os integrantes da banda britânica de hard rock Def Leppard, a partir da esquerda: Vivian Campbell (guitarrista), Phil Collen (guitarrista), Joe Elliot (vocalista), Rick Allen (baterista) e Rick Savage (baixista) (Foto: Divulgação)
Os integrantes da banda britânica de hard rock Def Leppard, a partir da esquerda: Vivian Campbell (guitarrista), Phil Collen (guitarrista), Joe Elliot (vocalista), Rick Allen (baterista) e Rick Savage (baixista) (Foto: Divulgação)

Em 31 de dezembro de 1984, Rick Allen, baterista do Def Leppard, sofreu um acidente de carro e teve o braço esquerdo amputado. Durante o período de recuperação, o músico desenvolveu uma versão própria do instrumento e voltou a tocar – continua na banda até hoje.

De acordo com o vocalista Joe Elliot, o episódio fez o Def Leppard cancelar o show que faria no primeiro Rock in Rio, em janeiro de 1985. “Nós não iríamos fazer o show com um baterista diferente”, afirmou ele em entrevista por telefone ao G1. A resposta é meio duvidosa: Elliot erra a data, cita que o festival foi em 1986.

Além disso, existe a outra versão de que a vinda do grupo britânico de hard rock, um dos mais populares da década de 1980, já tinha sido abortada em novembro de 1984 (antes do acidente de Allen, portanto). Isso porque havia problemas sérios na gravação do disco “Hysteria”. Traduzindo: eles vinham gastando muita energia e dinheiro no processo.

No fim das contas, o álbum acabou lançado em 1987 e se tornou o maior hit da carreira do Def Leppard. São dele “Pour some sugar on me” e “Love bites” (a própria, que ganhou versão em português chamada “Mordida de amor” pelas mãos da banda Yahoo).

Pois agora o Def Leppard tem a chance de “pagar a dívida” com o Rock in Rio: a banda toca no Palco Mundo nesta quinta-feira (21), logo antes do Aerosmith. Tem ainda outros dois shows no Brasil – São Paulo Trip, neste domingo (24); e no Beira-Rio, em Porto Alegre, na terça-feira (26).

Na conversa, Elliot, um dos dois únicos membros que estão desde o começo, em 1977, lembrou outras passagens difíceis da carreira, como a morte do guitarrista Steve Clark, em 1991: “Acho que somos muito, muito melhores agora do que éramos 20 anos atrás. Houve uma evolução natural, mas apenas porque é a vida. Durante 40 anos, as pessoas vêm e vão”.

G1 – O Def Leppard estava inicialmente escalado para o primeiro Rock in Rio, em 1985.

“Sim, iríamos tocar no primeiro Rock in Rio, mas, por causa do acidente do Rick, foi impossível. O Rick ainda não estava pronto para tocar, e nós não iríamos fazer o show com um baterista diferente. Então tivemos de esperar. Foi só no verão de 1986 que ele voltou a tocar, no Monsters of Rock, na Europa.”

G1 – É verdade que a banda não pensou em dispensar o Rick Allen depois do acidente? Como lidaram com aquela situação?

Joe Elliot – Quando formamos a banda, não era uma iniciativa de business, não convocamos anúncios em revistas para audição de músicos ou fizemos audição como se vê hoje em dia em reality shows na TV. Nós éramos só quatro garotos: eu, Pete Willis, Tony Kenning e Rick Savage. Nós nos juntamos apenas por diversão, para ver se poderíamos ser uma banda.

Depois, Steve Clark e Rick Allen se juntaram a nós. E nos tornamos cinco caras [Kenning saiu logo no começo] meio que fazendo um som e se divertindo. E virar uma banda, talvez uma banda de verdade, conseguir um contrato para um disco, gravar, vender discos e fazer turnê – e isso aconteceu!

“Quando Rick perdeu o braço, isso não significava que ele estava fora da banda. Porque, em primeiro lugar, nós éramos amigos; e, depois disso, músicos. Então, nós queríamos fazer de tudo para garantir que ele ficasse bem.”

Depois, veríamos aonde ir. Então, se ele virasse e nos dissesse “não consigo mais tocar bateria”, nós teríamos aceitado e procuraríamos um baterista diferente. Mas ele disse: “Eu consigo, se vocês me derem a oportunidade de fazer isso”.

G1 – Nos anos 1980, você dizia: ‘O termo can’t [‘não vai dar’] não existe no vocabulário do Def Leppard, porque temos um baterista com um braço só, gastamos um dinheiro e um tempo ridículo para fazer ‘Hysteria’ – e ainda estamos aqui, então tínhamos uma atitude de que nada era impossível’. Vocês mantêm essa atitude até hoje?

Joe Elliot – Sim, claro: nada é impossível, de um ponto de vista musical! Olhamos para a popularidade desta banda hoje em dia… Quando você pensa que, lá nos anos 1990, parecia que nós poderíamos facilmente meio ter sido deixados de lado por coisas como Pearl Jam, Nirvana, Alice in Chains. Mas nós ficamos juntos. Estávamos apenas atravessando uma turbulência. Se você continua em frente, atravessa e chega do outro lado, sabe?

“Se o seu baterista pode sobreviver depois de perder um braço e depois consegue voltar a tocar, e se nós conseguimos sobreviver à morte do Steve Clark, o guitarrista da banda [morto em 1991], e ainda assim continuamos, então é possível.”

É claro que houve momentos difíceis, como quando o Vivian [Campbell, guitarrista que entrou em 1994, substituindo Clark] anunciou que tinha câncer [em 2013]. Não foi fácil para a gente.

Nós temos uma confiança e um pensamento muito positivo a respeito do que vamos fazer. Esta banda vai durar até quando quisermos. Não vamos ser afetados por forças externas. Vai depender de nós, e nós saberemos decidir quando terminar.

G1 – O disco ‘Hysteria’ acaba de completar 30 anos. Qual a importância dele para a banda?

Joe Elliot – É uma loucura (risos)! Obviamente, é um disco muito, muito popular, o que mais vendeu de todos os que fizemos. Nós provavelmente jamais fizemos um disco que vendeu tantas cópias. Ele está tão impregnado no DNA das pessoas, nada mais poderia realmente chegar à altura dele, sabe?

É um disco muito importante, passamos um longo tempo tentando fazê-lo, para que ficasse diferente de tudo que já tínhamos feito. É um processo demorado e difícil, mas que nos deixa extremamente orgulhosos.

G1 – Você já comparou a gravação do ‘Hysteria’ ao desafio de descer o Everest patinando. Foi tão difícil assim?

Joe Elliot – Não foi um disco fácil de se fazer, sabe? Obviamente, o nosso maior obstáculo foi o fato de Rick Allen ter perdido o braço dele quando ainda estávamos começando a gravar. Ele ficou fora por um tempo, mas voltou em 1985, e começamos a fazer o disco como se pode ouvir hoje.

Nós precisávamos muito de orientação, foi muito difícil sem ele, porque nós estávamos meio que sem liderança, sabe?

“Nós não tínhamos um mentor, produtor, amigo nas sessões [de gravação]. Realmente não conhecíamos muito bem as coisas no estúdio. Sabemos disso hoje, mas ainda estávamos aprendendo em 1984, 1985.”

Foi um trabalho duro no estúdio. Mas uma vez que Mutt [produtor] apareceu, ele nos deu a direção de que precisávamos e a confiança de que precisávamos para fazer esse disco do jeito que ele se tornou.

G1 – O ‘Hysteria’ não está disponível em serviços de música digital. Por que isso? Acha o streaming é ruim para os artistas?

Joe Elliot – Tem dois jeitos de olhar para isso. Uma vez que a música se tornou digital, ela perdeu seu valor até certo ponto, porque se tornou mais fácil “roubar”. Nós estamos agora vivendo uma geração de pessoas para as quais é ok fazer download de música em sites ilegais e não pagam os artistas por isso. Tudo bem, mas é estranho, porque nós já fizemos muito dinheiro vendendo esses discos, mas as novas bandas que estão aparecendo não têm a chance de receber pela música delas, entendeu?

Eu sei que coisas como iTunes pagam mesmo os artistas. Mas Spotify e sites do tipo, de fato, também pagam tecnicamente os artistas, mas não pagam muito.

“Você pega uma artista como a Lady Gaga, que tem uma música que é tocada, por streaming, 5 milhões de vezes, e ganha US$ 200. Você ganha mais dinheiro do que isso se trabalhar no Mc Donald’s. É meio esquisito.”

A razão pela qual nossa música não está nos serviços digitais é puramente porque nosso contrato com a gravadora não especifica que eles têm os direitos para digitalizar. Então, até a gente entrar em acordo com a Universal, nossa música não vai estar nos serviços digitais.

Temos de negociar com eles, porque nosso contrato é bem mais antigo que a criação os serviços digitais. No contrato atual, não há termos sobre esse tipo de permissão. Não vamos permitir que isso aconteça até saber quanto ganharemos.

G1 – Você já descreveu que ‘o Hysteria tinha de ser um disco sexy’. Como assim?

Joe Ellit – Não, eu estava falando da música “Pour some sugar on me”. Quando gravamos essa música, queríamos o mesmo tipo de sexualidade de músicas como “Honky tonk women” ou “Brown sugar”, do Rolling Stones.

Elas têm um certo tipo de groove: são muito “dançáveis”, muito fáceis de ouvir, você pode balançar seu corpo naturalmente. “Pour some sugar on me” se enquadra nesse mesmo tipo de categoria.

G1 – Como você define o som do Def Leppard?

Joe Elliot – Diria que nos concentramos primeiro em fazer uma boa canção. A música tem de ser forte e memorável, um refrão realmente bom. Acho que a coisa óbvia para dizer é que precisa ter guitarras em destaque e vocais em destaque.

Sempre amamos o fato de que todo mundo na banda sabe cantar, todo mundo sabe fazer harmonias vocais fortes, mas a guitarra precisa ser espetacular, os arranjos.

“Gostamos de escrever músicas que as pessoas gostem de cantar junto, como Beach Boys e Beatles, sabe? Essa é a nossa intenção: canções memoráveis e melódicas.”

Fonte: https://g1.globo.com/musica/rock-in-rio/2017/noticia/def-leppard-vocal-lembra-acidente-que-amputou-braco-de-baterista-e-cancelamento-no-1-rock-in-rio.ghtml (Acesso em: 21/09/2017)