null
Acessibilidade Arte Destaque Inclusão Social Lazer Notícias Tecnologia

Audiodescrição literal ‘não chega’ para pessoas com deficiência visual, diz especialista do DF

Peça teatral para pessoas com pouca ou nenhuma visão usou audiodescrição e experiências sensoriais com atores. Participante disse que sentiu ‘como se enxergasse’ cenário.

Deficientes visuais fazem reconhecimento de figurino de atores de Brasília antes de espetáculo (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Deficientes visuais fazem reconhecimento de figurino de atores de Brasília antes de espetáculo (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Como descrever uma careta, uma dublagem propositalmente dessincronizada ou um movimento de dança para pessoas com deficiência visual? Transformar o teatro em uma experiência completa para quem não enxerga requer mais que a simples audiodescrição das cenas e, mesmo no cinema, a narração literal pode ser um equívoco.

A especialista em tecnologia assistiva para deficientes visuais Clarissa Barros, que atua em Brasília há três anos, afirma que é preciso aproximar os espectadores do que ocorre no palco, de modo sensorial. Foi esse o desafio enfrentado por ela nesta terça-feira (14), ao guiar um grupo de pessoas com baixa ou nenhuma visão em um espetáculo teatral.

Cerca de 30 pessoas de 19 a 75 anos que estudam no Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais, na Asa Sul, participaram da iniciativa. Antes de entrar no teatro, no entanto, elas passaram por três etapas de preparação. As duas primeiras foram encontros dedicados à contextualização histórica do teatro e do que seria apresentado no palco.

Clarissa disse ao G1 que fez até a reconstrução física do teatro em formato de maquete para explicar o ambiente e como as cenas se desenvolvem. Antes do início da peça, foi preciso explicar ao público, por exemplo, as características físicas do circo e do cabaré que ambientam a história.

“Estamos falando de um público que o vocabulário de vidente não atinge. Como descrever um palhaço se toda a graça dele está na expressão facial?”, questiona.

“A mera descrição da imagem não chega pra quem nasceu cego.”

Atores interagem com plateia formada por pessoas com deficiência visual antes de apresentar espetáculo em Brasília (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Atores interagem com plateia formada por pessoas com deficiência visual antes de apresentar espetáculo em Brasília (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Reconhecimento do espaço

A última etapa da preparação foi logo antes do espetáculo, quando a plateia foi conduzida dentro do teatro para fazer o reconhecimento do espaço, dos cenários, dos objetos, dos artistas e figurinos. Esta aproximação permite a criação de uma imagem mental mais verossímil, segundo Clarissa. “Não é por ter audiodescrição, simplesmente, que isso torna o espetáculo acessível.”

O participante Paulo César Rodrigues, de 49 anos, é cego e surdo. Ao G1, ele disse que esta foi a melhor experiência em audiodescrição que já vivenciou, por causa da interação prévia com os atores.

“Nós conhecemos todo o elenco antes e isso, pra quem é cego, é muito bom, porque a gente já sabe quem são os personagens”, contou. “[A audiodescrição] foi mais explicativa, mais completa.”

“Você sente como se estivesse enxergando o cenário. Esse é o diferencial da audiodescrição.”

Peça de teatro apresentada em Brasília com audiodescrição para pessoas com deficiência visual (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Peça de teatro apresentada em Brasília com audiodescrição para pessoas com deficiência visual (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

‘Pra cumprir tabela’

O desinteresse da classe artística é um fator crucial que precisa ser trabalhado para promover avanços significativos no acesso às pessoas com deficiência à cultura, segundo a especialista. Ela disse ao G1 que Brasília carece de artistas dispostos a investir em acessibilidade por vontade pessoal, e não para cumprir determinações legais.

“Sou musicista e professora de teatro, e o que vejo é um esforço da Secretaria de Cultura para tornar os espetáculos acessíveis, mas os artistas fazem só pra cumprir tabela.”

“Tudo é feito muito ‘nas coxas’.”

Segundo Clarissa, muitos espetáculos realizados na capital fazem audiodescrição com profissionais sem qualificação e acabam “forjando” uma acessibilidade. “É preciso se preocupar até com o horário e o local onde fica o espaço cultural. Na Funarte, por exemplo, não é possível chegar sem carro. O transporte público é ineficiente, falta sinal sonoro, piso tátil.”

Especialistas em audiodescriação guiam deficientes visuais em experiência sensorial antes de espetáculo teatral no DF (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Especialistas em audiodescriação guiam deficientes visuais em experiência sensorial antes de espetáculo teatral no DF (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Por conta disso, antes do espetáculo, o elenco também passou por uma preparação com Clarissa. Em uma palestra interativa, ela vendou atores, diretores e outros membros do grupo para que eles compreendessem as necessidades específicas do público, e pudessem adequar o texto.

“Uma das atrizes disse: minha cena não tem condição de ser apresentada para cego. Como vou fazer mágica?”, contou a especialista. “Tem que tirar as sujeiras das cena, gestos inúteis, cacos e tudo o que pode complicar a audiodescrição. O artista precisa estar sensibilizado e entender que a audiodescrição precisa ser feita de forma séria, com profissionais preparados.”

Não é só dizer

Atores fazem bate-papo com deficientes visuais após apresentação de peça teatral em Brasília (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Atores fazem bate-papo com deficientes visuais após apresentação de peça teatral em Brasília (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

A audiodescrição não é a tradução literal do que se vê, explica Clarissa. Descrever uma cena é ser capaz de transmitir também as sensações que ela provoca – os movimentos, as expressões faciais, as roupas, variações de luz e outros detalhes que, para quem enxerga são assimilados automaticamente. Para pessoas com deficiência visual, tudo isso precisa ser narrado.

Nesta terça, a apresentação de “Circus Cabaré Vaudeville” teve duração de 40 minutos e foi dividida em três atos com pausas para a audiodescriação, que foi feita em microfone aberto e não em fone de ouvido. “Essa foi a maior dificuldade do projeto pra mim, porque tive que descrever sem atrapalhar os atores”, contou a especialista.

“Com teatro de repertório você consegue se preparar melhor, porque existe todo um processo. Não é simplesmente dizer exatamente o que está acontecendo. Há um estudo de vocabulário, assistir 20 a 30 vezes às cenas para pegar o ‘timing’ do ator.”

Deficientes visuais fazem reconhecimento de figurino de atores de Brasília antes de espetáculo (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Deficientes visuais fazem reconhecimento de figurino de atores de Brasília antes de espetáculo (Foto: Thiago Sabino/Divulgação)

Para ilustrar a dificuldade do trabalho, Clarissa citou a cena de uma atriz que é sapateadora e faz uma dança sensual. “Ela faz gestos sensuais, com pernas trançadas, jogadas, e isso tudo precisa ser descrito. Dizer que abriu a perna direita num ângulo de 90º não quer dizer nada. Mas como fazer isso chegar?”

“Tudo é possível, só é preciso ser acessível. O cego tem toda a capacidade cognitiva de qualquer pessoa, ele só não enxerga.”

Ao final, foi aberto um bate-papo entre elenco e plateia para que cada um pudesse compartilhar as sensações experimentadas, as dificuldades e as técnicas que funcionaram. Para acrescentar ainda mais no debate, quatro consultores cegos de audiodescrição também assistiram ao espetáculo.

 

Por: Luiza Garonce, G1 DF
Fonte: https://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/audiodescricao-literal-nao-chega-para-pessoas-com-deficiencia-visual-diz-especialista-do-df.ghtml (Acesso em: 16/11/2017)

Receba as edições impressas da Revista PCD na sua casa!

Newsletter

Cadastre-se e fique por dentro das novidades!

Quer receber as novidades sobre o universo PCD no seu e-mail? Cadastre-se abaixo: