null
Acessibilidade Destaque Lazer Notícias Superação

Escola de dança motiva crianças com deficiência

Vitória de Deus em aula da escola de dança | Roberto Moreyra
Vitória de Deus em aula da escola de dança | Roberto Moreyra

Vitória de Deus baila. Samba ou salsa, forró ou zouk, nada intimida o gingado de sua cadeira de rodas lilás pelo salão de tábua corrida. Já é assim há quatro anos, desde que descobriu uma escola de dança que leva à pista 15 crianças com deficiência, acompanhadas pelo mesmo número de andantes. Vitória de Deus aprendeu a contornar limitações impostas pela mielomeningocele, um defeito congênito que afeta a espinha dorsal.

Marcelo Martins calcula. Corre atrás de patrocínios enquanto supervisiona a turma infantil, que tem dois professores, e idealiza uma voltada para adultos. É ele quem comanda, desde janeiro do ano passado, a Escola Carioca de Dança, a pista de 90 metros quadrados na Tijuca. Até então, o projeto gratuito, fundado em 2012 por Viviane Macedo, pentacampeã brasileira de dança esportiva em cadeira de rodas, dedicava-se ao preparo de alunos para competições. Recentemente, a falta de verbas quase fez parar a música, mas Martins conseguiu manter as luzes acesas acumulando uma campanha de financiamento coletivo, o apoio da prefeitura, da associação Liame e da rede de academias Smart Fit.

Raquel Silva gira. Cinco anos atrás, soube da escola quando tratava a má formação de sua bexiga. Acumula outros problemas de saúde — está à espera de sua 11ª cirurgia, a quarta na coluna —, mas passa pelo salão como se nada pudesse impedi-la. A mãe surpreende-se com sua firmeza ao segurar a cadeira de rodas. Raquel está mais forte, independente e, de quebra, fez novos amigos. É algo digno de nota, considerando que, devido à deficiência, passa quase todo o tempo livre apenas com a família.

Dora Queiroz corre. A administradora de empresas é uma das fundadoras do grupo Fazedores do Bem que, a cada ano, promove um evento especial para um público que costuma estar à margem da sociedade. Já fizeram visitas a abrigos, asilos e orfanatos. No final de junho, organizará, no Alto da Boa Vista, um baile para dez debutantes com deficiência física — Vitória e Raquel estão entre elas. Todas já experimentaram vestidos, terão sapatos, coroas, clareamento dentário, o making off documentado e, mais importante, uma nova cadeira de rodas.

— Quero que essa festa seja um divisor de águas para as meninas — revela Dora, que pilota os preparativos com um trio do Fazedores do Bem: Adria Braga, Dulce Miranda e Walmir Peixoto. — Procurei debutantes em escolas de samba e núcleos de pessoas com deficiência, até receber indicações sobre a escola de Marcelo Martins, que será um dos responsáveis pela coreografia do baile. Por enquanto, só vi a Vitória e a Raquel quando foram experimentar seus vestidos. Ainda preciso vê-las dançando ao vivo. É incrível como conquistam independência e autoestima.

Os alunos de Marcelo já se apresentaram em países europeus, e ele agora pretende levá-los a atividades motivacionais em empresas e escolas públicas. As aulas ocorrem aos sábados, das 11h às 13h. Agora, quer criar um turno mais cedo, das 9h às 11h, para adultos. Seu público-alvo será aqueles que passaram por acidentes traumáticos, que provocam um elevado índice de depressão. Outro plano é incluir pessoas com deficiência na equipe de instrutores.

— As crianças matriculadas na escola já nasceram com deficiência. Por isso, sempre foram superprotegidas pelos pais e são muito dependentes. Na dança, aprendem a se virar sozinhas. Algumas não conseguiam subir uma rampa sem ajuda, e agora inclinam suas cadeiras — exalta. — Quero atender os adultos que, depois de um acidente, pensam que a vida acabou. As aulas são uma atividade lúdica e que proporcionam uma oportunidade de interação.

Duplas dinâmicas

A dança é formada sempre por uma pessoa com deficiência e um andante. Geralmente é o homem que conduz, mesmo que seja o usuário da cadeira de rodas. As duplas variam de acordo com o gênero musical. Volta e meia Vitória é acompanhada por um dos professores. Às vezes, é por outro aluno — no zouk, por exemplo, divide a pista com um menino de 8 anos.

Atração rara para pessoas com deficiência, a escola de dança atrai crianças com deficiência de todos os cantos. Marcelo tem alunos de São Gonçalo, Maricá, Baixada Fluminense e de diversas regiões do Rio. Raquel vem da Pavuna. Vitória, de Acari.

— Demoro uma hora, incluindo o tempo no metrô — conta Vitória. — Quando eu passo pela rua, muita gente fica olhando. Mas não ligo. Só quero dançar.

 

Por: Renato Grandelle
Fonte: https://blogs.oglobo.globo.com/to-dentro/post/escola-de-danca-motiva-criancas-com-deficiencia.html (Acesso em: 21/05/2018)

Receba as edições impressas da Revista PCD na sua casa!

Newsletter

Cadastre-se e fique por dentro das novidades!

Quer receber as novidades sobre o universo PCD no seu e-mail? Cadastre-se abaixo: