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Acessibilidade e mobilidade urbana

Desafio é maior nas grandes cidades, mas o cenário é praticamente o mesmo de norte a sul do país.

Por: Camila Cechinel
De acordo com o Censo Demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 46 milhões de brasileiros, cerca de 24% da população, têm pelo menos uma das deficiências investigadas (mental, motora, visual e auditiva). Levando-se em consideração os números, será que podemos afirmar que o país é acessível a todos ou a acessibilidade é fragmentada, pensada em setores? 

Segundo a idealizadora da Startup Incluir dá Certo e do programa Inclusão na Lata – Diversidade e Inclusão Social (R&S), Renata Lellis, o Brasil anda a passos de formiga quando o assunto é acessibilidade e mobilidade urbana, não sendo preparado, infelizmente, para pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Ela, que realiza consultorias para empresas, diz que é preciso avaliar a questão para muito além das condições das ruas e dos transportes públicos, queixas efetivas de todos os cidadãos.
Para a empreendedora, um projeto, seja ele qual for, só pode ser considerado acessível quando pensado no coletivo, não somente nas pessoas comuns ou com deficiência motora, já que existem no Brasil aproximadamente 9 milhões de surdos e 6,5 milhões de cegos. Renata conta que o maior problema está na falta de comunicação entre os públicos: de quem faz as leis e dos empreendimentos que não conversam com aqueles que vão utilizar essa estrutura, assumindo, por vezes, uma vivência que é “desconhecida” por eles.

“Precisamos dar voz às pessoas com deficiência e não ser a voz. Vejo obras caríssimas tendo que ser refeitas porque não atingiram o resultado esperado. Muitas empresas de arquitetura e engenharia se baseiam em referências, copiam os erros, em vez de conversarem com as pessoas com deficiência para entender o que é prioritário. Somos todos seres humanos, vivemos no coletivo e temos que exigir uma sociedade mais justa e igualitária”, afirma Renata.
A jornalista Carla Foschini tem paralisia cerebral leve. Única sobrevivente de uma gravidez trigemelar, nasceu de 28 semanas e, como sequela, tem uma lesão nas pernas, andando com o apoio de bengala. Para ela, que mora próximo ao metrô Parada Inglesa, na zona norte de São Paulo/SP, o país não tem preparo, tanto na conscientização da população quanto no acesso, para receber e acolher os cidadãos com deficiência.
“Além das calçadas serem desniveladas e as ruas esburacadas, minha bengala sempre enrosca naquele relevo do chão marcado para pessoas com deficiência visual. Sei que é uma questão de acessibilidade, mas é uma coisa que, particularmente, me atrapalha. Talvez, se eu fosse cadeirante, dependesse de carrinhos ou até mesmo da muleta canadense, seria mais difícil, porque o equipamento ocupa mais espaço e é menos flexível’, diz.

Reflexos na educação e no mercado de trabalho

O acesso de crianças e adolescentes com deficiência em escolas regulares para trabalhar a inclusão com currículo adaptado é assegurado por lei no Brasil, tendo como objetivo o aprendizado e a aceitação social. No entanto, a falta de uma estrutura adequada para receber os alunos com deficiência e o medo da exclusão fazem com que os pais optem por matricular seus filhos em instituições específicas, privando-os do convívio social comum.
Ronald dos Santos Trindade, mais conhecido como Ronald Capita, tem 19 anos e uma síndrome rara chamada Marfan, que afeta os sistemas esquelético e cardiovascular, os olhos e a pele, além de ter escoliose. É cadeirante desde os 9 anos de idade, quando uma das intervenções cirúrgicas pelas quais passou atingiu sua medula e causou um enrijecimento das pernas. De Recife/PE, chegou em São Paulo ainda com poucos meses de vida.
Ele conta que fez o ensino fundamental na Escola Municipal Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, onde foi o primeiro aluno com deficiência da instituição. Na realidade, o colégio participou da sua transição entre a fase andante para cadeirante, precisando fazer adaptações na estrutura. “Lá eu sempre fui bem cuidado. Lembro de ter conseguido uma cadeira de rodas adaptada da Prefeitura. As aulas eram no piso térreo e em vez de os alunos irem até os professores, eles que iam até nós”, lembra. “Já no ensino médio, em um colégio diferente, foi bem complicado e não tive tanta sorte. Encontrei despreparo e preconceito”.
No mercado de trabalho a situação é ainda mais delicada, mesmo com a Lei de Cotas, que dispõe, entre outras medidas, das regras para a contratação e inclusão de PcDs, que obriga empresas com 100 ou mais funcionários a contratar de 2% a 5% de funcionários com deficiência.
De acordo com Renata Lellis, dos 46 milhões de brasileiros com deficiência (mental, motora, visual e auditiva), 9 milhões são capacitados para trabalhar, porém, apenas 1% deles está contratado em Regime CLT, com os direitos e deveres do empregado e do empregador. Para ela, o que acontece é simples: “não temos no Brasil cultura inclusiva dentro das organizações”.
“Empresas não estão com a intenção de realizar grandes reformas em sua estrutura e preenchem as vagas com pessoas com o menor grau de deficiência possível. Para contratar um cadeirante, por exemplo, é preciso que existam áreas acessíveis para que ele transite em todos os lugares, do banheiro ao refeitório e salas de reunião”, explica.
Thiago Cenjor, Consultor em Acessibilidade do escritório Núcleo de Arquitetura e Acessibilidade (NUCAA), é cadeirante desde 2001, quando, aos 20 anos, foi baleado durante um assalto em São Bernardo do Campo, região metropolitana de São Paulo, e ficou paraplégico. Ele conta que a falta de acessibilidade para trabalhadores com deficiência é ainda mais absurda quando os contratantes não sabem lidar com as particularidades de cada um, acreditando, por algum motivo ainda desconhecido, que eles não pensam, não agem, não sentem. “Isso faz com que, muitas vezes, a própria PcD opte por não trabalhar”, lamenta.
“A pessoa tem que se sujeitar a sair de casa, enfrentar as ruas em péssimas condições, os transportes públicos lamentáveis, o preconceito da sociedade e a falta de acessibilidade dentro da empresa para ganhar abaixo do valor de mercado e ser tratado como auxiliar do auxiliar? É preferível ficar em casa aposentado do que passar por tudo isso”, comenta.

Acessibilidade apenas para “inglês ver”

No começo de março, veículos de comunicação divulgaram a história da professora Ivana Bandeira, de 30 anos, que foi ao show do Chico Buarque, um dos maiores nomes da música popular brasileira, na casa de espetáculos Tom Brasil, em São Paulo. Tetraplégica, mesmo estando em uma área reservada para pessoas com deficiência, bem em frente ao palco, ao final da apresentação foi empurrada e espremida pela multidão, que quase fez com que a sua cadeira de rodas tombasse. Em vídeo, publicado na internet, é possível ver o absurdo que ocorreu na ocasião.
Apesar de áreas reservadas para PcDs serem asseguradas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), muitos estabelecimentos públicos e privados ainda não obedecem à legislação. E quando cumprem a regra, segundo Renata Lellis, disponibilizam espaços que estão longe de serem considerados acessíveis, ficando a dúvida se estão mesmo respeitando os direitos dos cidadãos com deficiência ou apenas cumprindo normas para evitar multas.
“Nem todas as casas de show têm espaço reservado para PcD. Quando tem, por vezes, os colocam lá atrás, com um monte de gente na frente, em uma área estreita. Em cinemas, quem usa cadeira de rodas é obrigado a sentar na frente do telão, em um lugar onde poucas pessoas comuns gostam de ficar porque é horrível de assistir ao filme”, diz a empreendedora, fazendo um adendo: “a acessibilidade oferece autonomia e independência para as pessoas. Não é um favor”.
Quando tinha 16 anos, Ronald Capita conheceu o estádio do Juventus da Mooca, um dos clubes mais tradicionais da capital paulista. Entre outras situações que precisou enfrentar no ambiente, como preconceito e o despreparo dos funcionários locais, ele relata que o único espaço demarcado para pessoas com deficiência era descoberto e com pouca visão para o campo, o que em dias de chuva ou sol intenso fica impraticável.
“Foi uma situação que, naquela época, me deixou indignado. O que eu presenciei é reflexo, até hoje, de como a sociedade ainda vê as pessoas com deficiência. O estádio é pequeno, então ecoa na falta de uma estrutura pensada para inclusão”, conta.
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (LBI) entrou em vigor em janeiro de 2016. De lá para cá, espera-se que tanto os projetos já existentes quanto os que ainda estão por vir, se adaptem com rampas adequadas, pisos especiais, espaços reservados flexíveis, escadas com espaçamento correto, elevadores que efetivamente funcionem, entre outros pontos, sem excluir nenhum indivíduo, garantindo, assim, o direito de ir e vir de todos. Para Renata, há uma série de erros que precisam ser corrigidos, porém, mais uma vez é necessário que haja uma relação entre quem faz as estruturas e quem delas irá usufruir.
“Não podemos achar que as coisas são óbvias. Os banheiros adaptados, por exemplo, não devem ser utilizados como depósito de produtos de limpeza, independente se há quem os utilize os não nos estabelecimentos. Brasileiros surdos não consomem filmes nacionais por não ter legenda. Libras é o segundo idioma oficial do país e ninguém aprende isso na escola. Por que?”.

Não importa o meio de transporte: avião, ônibus, táxi… a dificuldade é sempre a mesma

Que o Brasil tem uma série de falhas em seus coletivos não é novidade para ninguém. Entre ônibus em precário estado de conservação e com pouca rotatividade, e linhas de trem e metrô mal preparadas para receber o cidadão, devido à falta de estrutura e superlotação, a pessoa com deficiência encontra ainda mais dificuldades na hora de sair de casa. Para Renata Lellis, falar em mobilidade urbana requer pensar em grandes fluxos humanos e, mais uma vez, no coletivo: “subir as escadas de um ônibus, mesmo para uma pessoa que use perna mecânica, é difícil. O degrau é muito alto. Quantos cadeirantes não conseguem embarcar porque a plataforma não funciona, representando riscos de queda?”, questiona.
Para a jornalista Carla Foschini, o tema ultrapassa as condições dos transportes, sendo necessário abordar, também, o treinamento dos motoristas, que são despreparados e desrespeitosos, não parando no meio-fio para ajudar o passageiro com deficiência, não os esperando sentar e muito menos os ajudando a passar a catraca. Sem falar na população em geral, que não respeita, por exemplo, as vagas demarcadas para PcDs.
“Levei um tombo no ônibus uma vez pra nunca mais. Para me locomover, ou uso aplicativos de celular para chamar um carro ou vou de metrô. Às vezes, quando opto por dirigir, estaciono meu carro em vagas normais, pois mesmo tendo o direito, penso nas pessoas que precisam mais do que eu de uma vaga reservada”, conta.
Na opinião de Thiago, o que acontece no Brasil é vergonhoso, porque, além das pessoas com deficiência, há também os idosos, que, por conta da idade, ficam com a mobilidade reduzida, e os pais de crianças recém-nascidas, que precisam se locomover com o carrinho do bebê para todo lugar, encontrando várias dificuldades. Ele, que teve a oportunidade de viajar para fora do país, afirma que aqui tem muita coisa para ser melhorada e que é fundamental que quem faz as leis, quem elabora os projetos e os donos de estabelecimentos, entre outros, lembrem-se que um lugar acessível é adequado para todo mundo.
“Em aeroportos, é um absurdo o cadeirante precisar ser carregado nas escadas para subir e descer do avião, porque não tem um túnel suficiente para fazer essa ligação. Lá mesmo, quantos cadeirantes têm os táxis negados porque desmontar a cadeira de rodas leva tempo? É mais complicado do que se imagina e medidas devem ser tomadas para nortear tudo isso. Têm muitas pessoas com deficiência entrando na política e isso é excelente. Mas infelizmente o processo é lento”, finaliza Cenjor.

 

 

 

Por: Por: Camila Cechinel

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