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Notícias Política

Entrevista com Mara Gabrilli, senadora de São Paulo

Por: Taís Lambert

Foto: Alexssandro Loyola/PSDB na Câmara

Ela foi eleita senadora por São Paulo com mais de 6,5 milhões de votos. Mara Gabrilli pretende promover transformações importantes em momento de protagonismos das minorias

Começar o texto falando sobre a deficiência adquirida de Mara Gabrilli, 51 anos, publicitária e psicóloga, poderia resumi-la à sua lesão medular. Então, esqueça disso. Corte e pule para o agora: 6.513.282 pessoas externaram, em 2018, seu desejo de vê-la senadora depois de 13 anos na vida pública. A tucana assumiu a Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida (SMPED) em 2005, mesmo ano em que foi eleita vereadora na Câmara Municipal de São Paulo. Foi eleita deputada federal em 2011 e reeleita em 2014. No Congresso Brasileiro, preside a Comissão em Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Câmara dos Deputados e a Frente Parlamentar Mista de Atenção Integral às Pessoas com Doenças Raras.Designada relatora do Projeto de Lei que criava o Estatuto da Pessoa com Deficiência em 2013, construiu o texto que se tornaria a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência(LBI) – Lei nº 13.146/2015 após ampla consulta e participação popular, com as contribuições recebidas durante oito meses pelo e-Democracia, ferramenta interativa da Câmara dos Deputados.Esta foi, inclusive, a primeira vez na história da Câmara que um Projeto de Lei foi traduzido integralmente para a Língua Brasileira de Sinais para dar acesso à comunidade surda usuária da Libras.

Neste ano, em uma conquista inédita para o país, foi eleita para representar o Brasil no Comitê da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2019-2022). Sob o seu comando, foram desenvolvidos projetos de infraestrutura urbana na cidade de São Paulo, fazendo saltar de 300 para 3 mil o número de ônibus acessíveis; reformou-se 400 quilômetros de calçadas adaptadas, inclusive na Avenida Paulista, que se tornou modelo na América Latina; foram criados 39 núcleos municipais de reabilitação física e saúde auditiva;versões em braile ou áudio de todos os livros das Bibliotecas Municipais, dentre diversas outras conquistas, como protocolar dezenas de projetos de lei, dos quais sete foram transformados em leis municipais.

A seguir, a entrevista exclusiva que Mara Gabrilli concedeu à revista Universo da Inclusão. Ah, sim: em um acidente de carro em 1994 ela quebrou o pescoço e ficou tetraplégica.

Revista Universo da Inclusão: Você foi eleita senadora com mais de 6,5 milhões de votos. Em sua opinião, a sociedade está mais consciente do papel protagonista da pessoa com deficiência?

Mara Gabrilli: Não só do papel das pessoas com deficiência,mas da diversidade de uma maneira geral. Desde muito tempo, a política brasileira se mostra um reduto muito homogêneo e, a partir do próximo ano,teremos vários exemplos positivos de uma renovação. Quando entrei para a política, depois de quebrar o pescoço e perder os movimentos de pernas e braços, fui imbuída de um sentimento para trabalhar por aqueles que, assim como eu, tinham uma deficiência e não se sentiam incluídos. Esse trabalho me qualificou para agir por todos os brasileiros. E não só isso: a partir de 2019,como membro eleita para o Comitê da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, levarei minha experiência e meu olhar para avaliar políticas públicas para pessoas com deficiência por todo o mundo.

R.U. da Inclusão: Você poderia citar alguns casos dessa diversidade que mencionou no panorama político quelhe chamam a atenção?Mara: Na Câmara dos Deputados, teremos a Tábata Amaral, 24 anos, nascida na periferia, filha de uma diarista e de um cobrador de ônibus, que estudou em Harvard e voltou ao Brasil para se dedicar à política, em especial,à educação. Teremos também a Joênia Batista, primeira mulher indígena eleita para a Câmara. No Senado, o Fabiano Contarato, primeiro senador assumidamente gay. Eu mesma sou um duplo exemplo de minoria na política, pois sou mulher e tetraplégica. Minha vida e meu trabalho personificam esse pensamento de diversidade.

R.U. da Inclusão: Quais são suas pretensões no novo cargo?O que podemos esperar da Mara no Senado?

Mara: Uma Mara combativa que lutará não só pelas pessoas com deficiência. Como senadora, poderei contribuir ainda mais trabalhando por todos os brasileiros e pelo estado de São Paulo. Na Câmara, eu sou 1 entre 513 deputados. No Senado, serei 1 entre 81. A atenção é maior, os projetos tramitam de forma mais rápida. Isso significa que, se em um contexto de sub-representação como o da Câmara promovemos transformações importantes, como a Lei Brasileira de Inclusão [LBI],imagine tudo que poderemos fazer no Senado.

R.U. da Inclusão: A violência contra a mulher é tema crucial.Como política, mulher e com deficiência, qual é a sua opinião sobre o que é ser mulher com deficiência na sociedade brasileira?

Mara: Infelizmente, vivemos em uma sociedade que ainda é muito machista em todos os âmbitos. Especificamente no universo das pessoas com deficiência, a realidade é que inúmeras mulheres com deficiência ao redor do mundo sofrem violência de seus parceiros,membros da família, cuidadores e de pessoas próximas diariamente. Um levantamento recente da International Network of Women with Disabilities (INWWD) apontou que 40% das mulheres com deficiência em todo o mundo são vítimas de violência doméstica e 12% são vítimas de estupro. A pesquisa indicou ainda que mulheres com deficiência estão muito mais suscetíveis a abusos do que mulheres sem deficiência.

R.U. da Inclusão: E há ainda outras formas de violência…

Mara: Sim, há também a violência velada, cuja origem está na forma como a sociedade age (e reage)diante de uma mulher com deficiência. As pessoas não estão habituadas a encará-la como uma cidadã comum. Muita gente acredita que uma mulher com deficiência não pode ser mãe, não pode namorar ou ocupar determinada posição no trabalho. O próprio olhar da sociedade a viola. A discriminação com base no gênero é fruto de uma sociedade sexista e que ainda tem muito a evoluir. Mas a violência perpetrada contra mulheres com deficiência é ainda mais nociva, cruel e precisa ser combatida.

R.U. da Inclusão: A educação é outro tema caro. O que você tem a dizer sobre a educação inclusiva?

Mara: Entre todas as políticas públicas que favorecem a inclusão social, a que tem maior potencial de criar oportunidades, combater a pobreza e a marginalidade é a Educação. Costumo dizer que sou uma privilegiada por ter quebrado o pescoço quando já havia cursado duas faculdades. É muito difícil estudar no Brasil tendo uma deficiência. Muito dessa ineficácia na educação brasileira nasce da corrupção. Por isso, quero intensificar o trabalho de combate à corrupção no Senado Federal, por meio da criação de uma comissão permanente,de modo a incentivar o trabalho conjunto entre políticos e instituições da sociedade civil que já levam a cabo essa tarefa da educação inclusiva. A corrupção é uma praga que tira dinheiro do que realmente importa,que é a saúde e a educação. Quero levar para o Senado a experiência que ganhei ao fazer articulação entre o universo de instituições da sociedade civil e os poderes Legislativo e Executivo. A união dos três gera velocidade e eficácia em qualquer projeto em que se  trabalhe. Metade das pessoas que ingressa no ensino infantil, hoje, não consegue concluir o ensino médio.Precisamos mudar essa realidade urgentemente.

R.U. da Inclusão: Sabemos que a LBI é um exemplo internacional.Na prática, falta muito. Como fazê-la funcionar, efetivamente?

Mara: O primeiro passo é tornar de conhecimento de todos a amplitude dessa legislação construída pela sociedade civil. As pessoas precisam conhecera LBI. Muita gente ainda não sabe de todos os direitos contemplados pela Lei. O segundo passo, a partir do empoderamento das pessoas, é cobrar seu cumprimento.Hoje, por exemplo, já sabemos que nenhuma escola pode recusar a matrícula ou cobrar a mais de um aluno com deficiência. Se isso ocorrer, o gestor e a escola serão punidos, desde que se faça a denúncia.Ou seja, é preciso cobrar!

R.U. da Inclusão: Quais são suas expectativas como a primeira representante do Brasil no Comitê da ONU sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (2019-2022)?

Mara: As melhores possíveis! Minha função na ONU será a de avaliar como o mundo está dando cumprimento à Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Países signatários e sociedade civil submetem periodicamente ao comitê relatórios sobre suas políticas para pessoas com deficiência e nós, peritos independentes, daremos um parecer com orientações que indicam os pontos positivos e os pontos que devem ser aprimorados para dar cumprimento à Convenção. Além disso, é função dos peritos analisar denúncias de violações de direitos das pessoas com deficiência. Com isso poderemos trazer bons modelos aplicados lá fora para inspirar o Brasil.

 

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