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Esporte Notícias

Entrevista com Anderson Lopes, coordenador de política para as pessoas com deficiência do estado do Rio de Janeiro

Por: Cida Farias

Anderson Lopes (Foto: Arquivo pessoal)

Ex-atleta paralímpico e ativista há 29 anos, novo coordenador de política para as pessoas com deficiência do estado do Rio de Janeiro fala dos desafios de sua gestão e como criar centros de excelência em reabilitação para todos os municípios

Medalhista paralímpico e ex-gerente de projetos da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos – Andef, Anderson Lopes, 47 anos, foi nomeado coordenador de política para a pessoa com deficiência, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, do Rio de Janeiro, em março. Nascido no município de São Gonçalo/RJ, ele milita há 29 anos na luta pelos direitos da pessoa com deficiência. Lopes teve paralisia cerebral, por falta de oxigenação no cérebro durante o parto, o que diminuiu os seus movimentos do lado direito. Aos 15 anos, conheceu a Andef e, logo em seguida, conquistou seu primeiro emprego. Paralelamente, passou a se dedicar ao esporte paralímpico, praticando diversas modalidades. Entre elas a natação, mas seu maior potencial foi encontrado no lançamento de disco,com atuação até 2011. Enquanto atleta, Lopes nunca deixou de lado o ativismo. Não à toa já havia assumido diversos cargos políticos: subsecretário da pessoa com deficiência do Estado do Rio de Janeiro; diretor de esporte da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro – Suderj e subsecretário da pessoa com deficiência de São Gonçalo, entre outros. “Acho que essa é a minha missão de vida. Não apenas como atleta paralímpico, mas trabalhar para dar um retorno à sociedade, contribuindo com melhorias na vida da pessoa com deficiência e/ou mobilidade reduzida”, ressalta.

Anderson Lopes deu uma entrevista exclusiva para a Revista Universo da Inclusão, confira:

Anderson Lopes, ex-atleta paralímpico com suas medalhas (Foto: Arquivo pessoal)

Universo da Inclusão: Quando foi despertada a sua militância?

Anderson Lopes – Desde o início da minha trajetória. Conheci o esporte paralímpico em 1988, quando ninguém entendia o que significava. Então, vi que, por meio dele, podia trazer resultado para todo o Brasil, como também para a minha família, que foi base a de tudo. Meu pai e minha mãe acreditaram muito no meu potencial como cidadão. Então, comecei a discutir a política da pessoa com deficiência como ativista e atleta. Quando ganhava uma medalha, e tinha a oportunidade de falar com algum governante, trazia as questões da pessoa com deficiência para o meu discurso.

De quais Jogos Paralímpicos participou como atleta?

Com 15 anos, comecei treinando natação. Depois, fui jogador de futebol (de paralisia cerebral) e participei da primeira Paralimpíada, em Barcelona (Espanha), em 1992. Após isso, veio o atletismo, no qual me especializei na prova de lançamento de disco e conquistei a primeira medalha paralímpica de bronze nos Jogos de Atlanta(Estados Unidos), em 1996. Em seguida,ganhei mais uma medalha de bronze na Paralimpíada de Sydney (Austrália), em 2000, e ainda bati o recorde mundial no lançamento de disco por duas vezes. Comisso, comecei a rodar o mundo inteiro, conhecendo um pouco da problemática e das novidades do universo da PcD.

Como enxerga a valorização da discussão das questões da pessoa com deficiência no país?

Com relação ao Brasil, há cerca de cinco anos, o país via a PcD como digna de pena, de assistencialismo.Mas, mesmo na militância, não queríamos ser vistos como “tadinho”, queríamos a inclusão, mostrar que não somos um peso social. E isso conseguimos demonstrar por meio do esporte paralímpico,aproveitando a ligação do atleta com deficiência e a mídia. Uma coisa seria se o Clodoaldo Silva (nadador)ganhasse uma medalha e não tivesse repercussão,mas outra foi ser visto diversas vezes nos principais programas de televisão.

A partir de quando a mídia passou a dar espaço para o esporte paralímpico?

Em 1996, nas Paralimpíadas de Atlanta, quando o primeiro presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, João Batista Carvalho e Silva, conseguiu levar ao evento seis canais de televisão e o então ministro extraordinário do esporte, Edson Arantes do Nascimento, Pelé. A partir daí, começou uma nova fase para o esporte, que passou a ter uma visibilidade até então inexistente. O próprio Clodoaldo Silva diz nas suas palestras que saiu das piscinas do Nordeste porque conseguiu ver o esporte paralímpico na TV.

De que forma o esporte paralímpico contribuiu para uma mudança no cenário político da PcD no Brasil?

Eu posso afirmar hoje que foi o fortalecimento do esporte paralímpico que contribuiu para abrir esse canal de diálogo para grande parte da legislação voltada para a PcD que temos hoje. O povo começou a eleger parlamentares com deficiência para nos representar. Hoje, por exemplo, temos a senadora Mara Gabrilli, que é tetraplégica, lutando por todos os nossos ideais no Senado Federal. Vale dizer que isso foi um trabalho de formiguinha, de base.

Qual é seu principal objetivo como coordenador de política para a PcD do Rio de Janeiro?

Meu maior objetivo é criar uma política séria de inclusão que passe por todas as secretarias, porque as questões da pessoa com deficiência não são de uma pasta só. Por exemplo: educação, esporte olímpico e paralímpico, mercado de trabalho, transporte,pessoas idosas. Tudo já está escrito na Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência e na Lei Brasileira de Inclusão, por isso quero tirar do papel alguns direitos que já existem, como dar para acriança e o jovem com deficiência o direito de ir e vir,estudar, ter uma reabilitação digna, trabalhar ou até se tornar um atleta paralímpico.

Quais demandas devem ser prioridade da sua gestão no estado?

Criar mais centros de excelência em reabilitação.Por isso, pretendo buscar parcerias, principalmente com o governo federal, para que cada município possua uma unidade de referência. Acredito que possa contribuir nessa interlocução com as instituições e o poder público. Além de trazer debate e diálogo, vou trabalhar para que o estado possa crescer novamente em relação ao direito da pessoa com deficiência.

E em relação ao esporte, já tem algum projeto?

Tenho o desejo de fomentar que a rede de ensino promova aulas inclusivas de Educação Física nas escolas, a fim de associar a prática de esporte à ferramenta de tratamento e reabilitação. O mais difícil hoje não é reabilitar o lado físico da PcD, mas é inclui-la ou inseri-la novamente na sociedade.É nesse sentido que quero poder ajudar.

 

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