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Autismo Notícias

Transtorno do espectro autista

Por: Davi Molinari  (Fotos: Simone Meirelles e Shutterstock)

A ignorância sobre como identificar em crianças os sinais de déficit de comunicação atrasa o início do tratamento para o TEA

A cada vez que o neurologista gaúcho Dr. Carlos Gadia desembarca no Brasil, sua presença mobiliza a atenção de colegas, profissionais da saúde e de um sem-número de pais, mães e parentes de crianças que apresentam algum indício ou que já foram diagnosticadas com o TEA. Vivendo nos Estados Unidos há mais de 30 anos, Gadia é considerado por muitos o “papa” em diagnóstico e prognóstico das chamadas desordens do desenvolvimento neurológico que afetam a interação social e a comunicação dos pacientes dentro do espectro autista. Depois de concluir a Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1980, foi para Miami completar seus programas de residência em neurologia e neurologia pediátrica, em 1987, no Jackson Memorial Hospital. Em seguida, concluiu sua bolsa em epilepsia pediátrica e neurofisiologia clínica no Hospital Infantil de Boston, na Harvard Medical School, em 1988. Apesar de aprofundar suas pesquisas nas áreas que, até então, mais lhe despertavam o interesse: neurologia pediátrica e epilepsia pediátrica, foi sua atuação em autismo que lhe conferiu o reconhecimento mundial. Ainda que possa contar com equipamentos sofisticados para atender seus clientes, foram os exames clínicos e uma excelente Anamnese – entrevista com a mãe dos pacientes – que lhe transformaram em renomado especialista em TEA e em diretor do Centro Hospitalar de Crianças Dan Marino de Miami (Miami Children’s Hospital Dan Marino Center) – referência para a avaliação e tratamento de autismo e outras desordens de neurodesenvolvimento. O Centro recebeu o nome do seu fundador e principal mantenedor, o homônimo jogador de futebol americano, cujo filho foi diagnosticado com autismo com 2 anos e a família decidiu que era preciso mudar o modo como a sociedade tratava a questão. “Existe um preconceito na sociedade e até dos familiares por causa da falta de informação sobre o autismo”, falou Gadia, para a reportagem, na última vez que esteve aqui no país, em abril.

Difundir os exames clínicos 

O TEA se caracteriza pelo déficit em duas grandes áreas: falta de comunicação e interação social; e a presença de comportamentos estereotipados repetitivos ou interesses restritos. Em alguns casos, há também uma regressão, as crianças começam a perder a capacidade de falar. Gadia afirma que tais sintomas podem se manifestar em níveis diferentes a partir dos 18 meses de vida de um bebê. “São sinais que os profissionais de saúde, em geral, os professores e até os pais devem estar preparados para identificar” . O apelo de Gadia tem uma razão estatística. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), os sintomas atingem uma em cada 160 crianças. Historicamente, se descobre que o paciente se enquadra no espectro autista quando a criança já está com 3 ou 4 anos de idade. E, para piorar, a maior parte começa a ser tratada quando já tem 5 ou 6 anos. O tratamento tardio posterga os benefícios que, por exemplo, as terapias de fonoaudiologia podem vir a propiciar se começarem precocemente. Não por acaso, Gadia defende a alteração no currículo de graduação das faculdades relacionadas à área de saúde (e até da educação infantil) com a introdução de informações sobre o TEA e como fazer uma leitura simples dos sinais descritos abaixo:

• Ausência de balbuciar aos 12 meses

• Ausência de gestos aos 12 meses (apontar, abanar)

• Ausência das primeiras palavras aos 16 meses

• Ausência de combinações de 2 palavras espontaneamente (não-ecolálicas*) aos 24 meses

• Qualquer perda de linguagem ou habilidades sociais em qualquer idade

* O que é ecolálica: Quando uma criança repete o que uma outra pessoa fala, mas de forma involuntária, não refletindo, assim, um aprendizado ou intencionalidade.

Treinamento dos pais

“Os profissionais de saúde devem escutar as mães, que são as primeiras a se darem conta de que alguma coisa não está certa com seu filho”, afirma Gadia. Os médicos precisam fazer as perguntas corretas, mas se os pais forem treinados a identificar os sinais, eles trarão as respostas para o diagnóstico: “Crianças que não balbuciam aos 12 meses, que não estão dizendo palavras aos 16 meses, que não estão colocando duas palavras juntas aos 24 meses… são sinais de alerta”, disse. Foi interessado no que os pais tinham a falar que Dr. Gadia se envolveu com a fundação de ONGs e com a realização de eventos como o TEABRAÇO, em Ribeirão Preto/SP, e o do RIO TEAMA, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro/RJ. “Me sinto realizado em ajudar a comunidade autista no Brasil a melhorar a qualidade de vida de seus filhos, a obter mais conhecimento e a combater o preconceito”. A imprensa, as entidades de classe e as escolas têm papel fundamental na difusão do conhecimento sobre o TEA. “É preciso lidar com esta criança de modo que ela seja incluída no ambiente escolar, por exemplo, com os cuidados que ela merece: sem ser isolada e, ao mesmo tempo, sem deixar de ser considerada em sua realidade”, falou, lembrando que desde 2014, as escolas e os pais de outros alunos são obrigados a acolhê-las no ambiente escolar.

A solução é oferecer terapias e treinar os pais para aplicá-las

A comunidade científica se aproxima cada vez mais das causas da desordem do sistema nervoso que podem levar ao TEA. Há uma linha de investigação sobre predisposição genética, na China, por exemplo, que relaciona a permeabilidade do intestino com os problemas no sistema nervoso. Cientistas do Peking University First Hospital, em Beijing (China), publicaram no periódico científico Frontiers uma extraordinária metanálise de 150 estudos realizados em todo o mundo desde a década de 1960, relacionando o equilíbrio da flora intestinal e o TEA. Toxinas produzidas pelo Lactobacillus – que num intestino normal seriam eliminadas com as fezes – podem estar sendo secretadas no organismo e afetando o sistema nervoso. “Há genes que são gatilhos e outros, que ausentes, propiciam o aparecimento do transtorno”. Tudo isso ainda está no futuro. Há uma distância entre as pesquisas laboratoriais, a realidade dos pacientes e dos pais que sofrem com a ausência de centros de atendimento, por exemplo, aqui no Brasil, onde se estima existam 2 milhões de pessoas com autismo. Não existem medicações para autismo. Os medicamentos, quando indicados, servem apenas para diminuir a ansiedade e comportamentos hiperativos ou agressivos que impedem a introdução ou evolução de terapias comportamentais e/ou fonoaudiólogas. Os pais são a chave para aplicação destas terapias. “Quando treinados, eles conseguem reproduzir o que deve ser feito para buscar a melhoria da qualidade de vida do paciente”, finalizou Gadia.

TEAbraço 2019

Mais de 5 mil pessoas participaram do evento em Ribeirão Preto, na primeira semana de abril

A 4ª edição do TEAbraço, realizada na Semana Internacional do Autismo no Shopping Iguatemi de Ribeirão Preto/ SP, foi sucesso de público. Gadia, um dos entusiastas do evento, liderou a equipe internacional que veio participar para relevar a importância da difusão de informações sobre o TEA. Além das palestras de especialistas, o evento foi marcado por workshops e exibições práticas de atendimento a pessoas dentro do espectro autista. Em uma das demonstrações, Gadia selecionou pacientes que receberam intervenções de tratamento, ao vivo, dos especialistas convidados. Os palestrantes, também, falaram sobre adaptação ao ambiente escolar, comportamentos agressivos, sexualidade e abuso sexual, esportes, leis e direitos, uso de Canabidiol no tratamento, bullying e suicídio, desafios da vida adulta, mercado de trabalho, entre outros.

 

 

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