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Quatro razões para você ir no Parque Ecológico Imigrantes

Por: Taís Lambert (texto e foto)

Parque possui 500 mil m² de área de preservação permanente e é um convite à contemplação da natureza em São Bernardo do Campo (SP).

SERVIÇO
Para visitar: As visitas são gratuitas e monitoradas, com agendamento prévio pelo site www.parqueecologicoimigrantes.org.br. O calendário é aberto às terças, quartas e quintas-feiras. Não abre nos fins de semana.

Por este caminho faço planos de seguir flores de ipê”. A frase é um Haiku (ou Haikai), forma curta de poesia japonesa, e está talhado numa pedra no deck de madeira ecológica que dá acesso ao passeio no Parque Ecológico Imigrantes, o PEI, inaugurado recentemente. O autor do poema é Kunito Miyasaka, que dá nome à Fundação sem fins lucrativos que concebeu e concretizou o Parque Ecológico Imigrantes como um presente da comunidade japonesa à brasileira, e que faz parte das comemorações dos 110 anos da imigração nipônica ao Brasil. “Na verdade, a intenção era inaugurar o parque dez anos atrás, no Centenário da Imigração Japonesa. Mas a burocracia e a falta de recursos atrasaram nossos objetivos. Ainda faltam muitas coisas, mas estamos no caminho”, conta Margarete Koga, gerente operacional do PEI. No km 34,5 da Rodovia dos Imigrantes, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, o parque, localizado no coração da mata atlântica, está situado em um corredor de fauna, que interliga as margens da Represa Billings com o Parque Estadual Serra do Mar. Ele tem acessibilidade para a pessoa com deficiência. A Revista Universo da Inclusão convidou Sérgio Cavalcanti, 43 anos, arquiteto, usuário de cadeira de rodas, para experimentar o parque em uma visita guiada. Veja a seguir quatro razões para você conhecer o PEI.

 

1 Construção sustentável e certificação inédita

Você já ouviu falar da filosofia japonesa do Mottainai? É um termo que transmite a sensação de pesar em relação ao desperdício e é essa filosofia que permeia o parque. Os conceitos de sustentabilidade, que serviram como ponto de partida para a criação de formas, volumes e estruturas, valorizam e permitem o menor impacto possível ao meio ambiente. De acordo com o presidente da Fundação Kunito Miyasaka, Dr. Roberto Yoshihiro Nishio, “foram 11 anos de trabalho, esforço e superação de desafios para tornar realidade o primeiro parque do mundo a obter a certificação de sustentabilidade AQUA-HQE (Alta Qualidade Ambiental ou Haute Qualité Environmentale), aplicada no Brasil pela Fundação Vanzolini – conquistada por meio de práticas ambientais adotadas desde a concepção do projeto, passando pela execução, até o uso e operação das instalações”. As soluções ambientais da construção do PEI começam no portal de entrada que recebe os visitantes. A estrutura de aço reciclado é feita com perfis metálicos parafusados, nos quais estão embutidos a sucata equivalente a 130 carros populares. Trata-se de uma estrutura que pode ser desmontada e removida no futuro, porque não tem solda. Além disso, as paredes facilitam a

Este é o primeiro parque o mundo com a certificação de sustentabilidade Aqua-HQE ( Alta qualidade ambiental), aplicada no Brasil pela Fundação Vanzolini

ventilação cruzada e a climatização, pois são feitas de chapas perfuradas. A passarela elevada – principal local de circulação de pessoas pelo parque – que sobrevoa a floresta em meio à copa das árvores, foi construída com a utilização de madeira plástica, estruturas compostas por 70% de sobras de madeira, como serragem, e 30% de resíduos oriundos do pós-consumo de plástico, como no caso das garrafas PET. O uso de energia limpa proveniente de fontes renováveis foi outra preocupação: você reparará nas placas do sistema fotovoltaico e eólico para backup de energia, com três horas de autonomia, que alimenta a rede de iluminação e a bomba d´água que irriga as áreas administrativas do parque e o lago. A água da chuva que cai no teto do Portal é captada e conduzida por calhas até um reservatório. Apesar de não ser potável, esse recurso abastece um “circuito de água”, constituído por cerca de 25 mil litros, composto por dois lagos, um espelho d’água e três reservatórios de 5 mil litros. Essa água também é utilizada em tarefas cotidianas: na limpeza das passarelas, dos decks, na rega do viveiro de mudas e de outras plantas.

2 Contemplação da natureza
A mata atlântica é uma das áreas mais ricas em biodiversidade e das mais ameaçadas do planeta. Uma região decretada reserva da Biosfera pela Unesco e Patrimônio Nacional do Brasil, na Constituição Federal de 1988. Imagine que, das 633 espécies de animais ameaçadas de extinção
no Brasil, 383 ocorrem na mata atlântica. No PEI, você poderá vislumbrar – e se deslumbrar – com samambaias, orquídeas e bromélias, palmeiras, araçás, goiabeiras e quaresmeiras floridas, que
estendem cores como branco, lilás e rosa por toda a mata, dentre tantas outras espécies. Tatus, gambás, macacos, quatis, veados, bugios e cotias são moradores ainda tímidos, mas que, aos poucos, estão se acostumando com a presença humana.

3 Inclusão social

Os bairros localizados na região do pós- -balsa – Santa Cruz, Tatetus, Taquacetuba e Matarazzo – se configuram como fator primordial para a conservação da região no entorno do Parque Ecológico Imigrantes. Desde o início, no processo de construção das infraestruturas, até a prestação de serviços nas diferentes atividades desenvolvidas, o objetivo foi gerar o desenvolvimento participativo. Os trabalhadores da obra, o guarda- -parque, a equipe de manutenção e os monitores de ecoturismo foram selecionados na comunidade local, com o propósito de gerar qualificação e oportunidades. O projeto socioambiental identificou características que comprometem a conservação, onde estão presentes agentes de impacto, como a grilagem de terra, vendas de terrenos irregulares, extrativismo vegetal e caça ilegais. Além do descarte de pneus, carcaças de carros, lixo e poluição do solo e da água. O levantamento indicou que habitam no local cerca de 10 mil pessoas. Como forma de coibir as invasões e caças no perímetro do terreno, foram instaladas placas indicando as divisas da área, além do trabalho de conscientização por meio de campanhas e parcerias com os projetos sociais das comunidades locais.

4 Maior acessibilidade a caminho

Piso tátil logo na entrada, banheiro acessível e rampas já causam aquela boa primeira impressão. O acesso ao parque atende à norma brasileira ABNT NBR 9050 de acessibilidade em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos. Embora sejam seis as trilhas disponíveis para visitação, apenas duas são acessíveis à pessoa com deficiência física com dificuldade de mobilidade: as Passarelas (400 m) e a Trilha Sensorial (150 m). Para iniciar o passeio, nosso convidado Sérgio Cavalcanti entrou no elevador que dá acesso às passarelas elevadas, construídas na altura da copa das árvores. Neste elevador cabe o cadeirante e um acompanhante. “A acessibilidade das passarelas é excelente, com inclinação adequada e de fácil circulação”, avaliou. O elevador de plano inclinado, também chamado de “bondinho”, leva os visitantes para cima, ao outro plano do Parque, onde fica a Trilha Sensorial. Sérgio, que já viajou para vários países com ótimos recursos de acessibilidade, curtiu bastante o recurso. “Cabem duas cadeiras de rodas, e mais pessoas, o que facilita e otimiza tempo quando há bastante gente”. A Trilha Sensorial começa em um túnel adornado por maracujá silvestre, uma trepadeira que, quando na época de sua florada, convida inúmeras borboletas que dão um ar fantasioso ao percurso. Nesta trilha, a pessoa com deficiência visual tem a oportunidade de experimentar com o tato, o olfato e o paladar, quando possível, uma série de ervas plantadas em jardineiras. “A pessoa pode experimentar o orégano, a hortelã, a salsa. Para o olfato, há ainda a malva, a arruda e o incenso, com cheiros mais fortes. Não são nativas da mata atlântica, mas são ótimas para despertar a sensibilidade”, explica Wollem Dias Barbosa, um dos monitores do parque. As placas em braile trazem o nome popular, o nome científico e o sentido que a planta desperta à pessoa cega: ora apenas o tato, ora o tato, o olfato e o paladar. Margarete Koga explica que o PEI contou com a consultoria da Fundação Dorina Nowill. “As localizações do piso tátil, toda a sinalização de solo e as plaquinhas da trilha sensorial foram orientadas pela Fundação”. Na opinião de Sérgio Cavalcanti, o parque é surpreendente e a atenção dada pelos funcionários, excelente. “Eles são de muita boa vontade. Achei o parque muito didático, principalmente para crianças. O ponto fraco é não ter nenhuma trilha em solo que seja acessível. Quando a gente está no chão, o contato com a natureza é mais direto. A trilha no solo é indispensável para a educação ambiental. Crianças cadeirantes teriam um contato com a natureza de forma bem diferenciada se houvesse uma trilha por meio da mata”. A gerente operacional admite que faltam alguns recursos. “Falta muita coisa ainda. Por exemplo, a parte do QR Code para a pessoa com deficiência visual já está a caminho. Para a pessoa com deficiência auditiva, teremos um intérprete de Libras. Estamos viabilizando alguém que tenha a ver com esse contexto”, adiantou Margarete. “Muitas coisas faltam por questões financeiras. Se a gente fosse esperar que tudo ficasse do jeito que precisa, nunca abriríamos! Há muita coisa que precisamos fazer e estamos trabalhando constantemente para isso”.

 

 

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