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Esporte Notícias

Lugar de cadeirante é no bowl

Por: Taís Lambert (texto e foto)

Instituto Faca na Cadeira dá impulso ao WCMX no Brasil, modalidade esportiva radical que auxilia cadeirantes a reabilitação e autonomia, treinando em pistas de skate

 

Cara, vocês são loucos. Se caírem, vocês não têm pernas para sair andando”. A frase partiu de um skatista desavisado que viu o treino da equipe Faca na Cadeira e o tom era de inconformismo e repreensão. O nome faz alusão ao filme Tropa de Elite , brinca com a ideia da adrenalina e coragem e reúne cadeirantes radicais que encontraram na modalidade Wheelchair Moto Cross (WCMX), que mistura BMX e skate, o caminho para ganhar mais autonomia e autoconfiança. Há um ano, Leandro Badi, 27 anos, advogado e administrador de imóveis, fundou o instituto ao lado do professor e doutor em Educação Física José Ricardo Auricchio, responsável por comandar os treinos desse pessoal que se reúne no Centro de Esportes Radicais, no Bom Retiro, em São Paulo/SP. Leandro é o principal praticante no Brasil e já esteve na Califórnia – Estados Unidos, para participar do nível intermediário de um campeonato.

O WCMX traz uma série de benefícios aos praticantes, embora dê calafrios a quem nunca teve contato com a cena de um cadeirante se jogando, de livre e espontânea vontade, no bowl de skate. “Já criamos metodologia de ensino do esporte, treinamento e equipe de competição. Eles têm um protocolo de treino de força e de treino funcional para ajudar no esporte e no dia a dia fora daqui”, explica o treinador Ricardo Auricchio. “O esporte aumenta a força e o condicionamento cardiovascular, além de reduzir gordura corporal. Uma série de benefícios que melhoram a capacidade funcional e, consequentemente, a qualidade de vida”. Aos 18 anos, Badi estava almoçando no jardim de um restaurante em Amsterdã – Holanda, quando um homem saltou do terceiro andar de um prédio e caiu sobre ele, lesionando sua medula na região T12. “Depois que eu sofri o acidente, passei sete anos sem praticar esporte, apenas fazendo fisioterapia, reabilitação e exercícios. Cada um tem o seu tempo… Eu fui fazer faculdade, trabalhar, tocar minha vida. Depois de sete anos, encontrei o WCMX e me apaixonei de vez. Agora não largo mais!”.

 

A cara do esporte no país

Leandro Badi e o José Ricardo Auricchio: Instituto Faca na Cadeira incentiva a prática do WCMX no Brasil

No Brasil, não há um campeonato de WCMX, apenas festivais, e o Faca na Cadeira pretende mudar essa realidade com o I Campeonato Paulista, com data ainda a ser programada, provavelmente no mês de junho. A competição servirá como uma seletiva para o Campeonato Mundial de Paraskate WCMX, que acontecerá em agosto, na Alemanha. Para participar do Faca na Cadeira, basta chegar no Centro de Esportes Radicais e passar por uma admissão. O treinador explica que é necessário que ele e o time de professores de educação física e fisioterapia conheçam o histórico do cadeirante, o acidente e sua lesão para criar um protocolo para aquela pessoa em especial. “Aqui o atendimento é individualizado, com treinamento e acompanhamento diferente para cada atleta”. O instituto empresta a cadeira de rodas e os equipamentos de proteção, que são: joelheira, cotoveleira, protetor de coluna, protetor cervical e capacete de motocross fechado. “Estamos estudando também colocar uma ombreira. Todos esses equipamentos não são utilizados internacionalmente, nós é que estamos criando essa novidade”, revela Leandro Badi. As cadeiras são específicas para o treino de iniciação. As mais modernas, como a que Leandro usa, tem amortecedor e é mais reforçada. São cadeiras de competição que custam de R$ 10 mil a R$ 15 mil e só há uma fábrica no Brasil que as produz, inclusive para exportação, na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, cujo dono foi quem inseriu o esporte no Brasil.

 

Cadeirantes radicais, sim, senhor

“Hoje estou completando 6 anos, mas tenho 30 anos. Hoje é meu aniversário depois do acidente”. Foi assim que

Diego Antonio Soares perdeu 16 kg, ganhou força e confiança até para descer escadarias

Valdir de Sousa Santos se apresentou numa sexta-feira de céu carregado no Centro de Esportes Radicais, na beira do bowl. Ele trabalhava em uma obra de construção civil quando caiu de uma altura de 5 m e, na sequência, teve a coluna quebrada na vértebra T12 com a queda de um pedreiro em cima dele. “Fiquei paraplégico e tive que aprender a viver com a deficiência. O Valdir de seis anos atrás jamais veria a si mesmo descendo uma pista dessa aqui. Eu precisei vir parar numa cadeira de rodas para começar um esporte radical”, diz ele, que começou o WCMX em março de 2018. “O esporte me deu uma autoestima enorme. Antes de praticá-lo, eu já andava na rua sozinho, mas era com muita dificuldade. Depois do esporte, consigo subir rampas íngremes e descer degraus”. A meta do Faca na Cadeira é o auxílio à reabilitação por meio da prática esportiva. “A pessoa chega aqui e nem sabe empinar ou tocar a cadeira direito. Depois de um tempo, acaba ‘dropando’ esse bowl!”, aponta Leandro Badi. “Reabilita não só fisicamente, mas também socialmente.

Pois, por meio desse esporte, conhecemos outras pessoas que passaram pelos mesmos problemas e têm histórias parecidas. Essa troca de experiências ajuda muito. Aprendemos a nos virar e ser independentes”. Diego Antonio Soares, 27, que o diga. Ele é o que está há menos tempo na equipe, chegou no WCMX com enorme grau de dependência. “Precisava de uma prancha para me transferir do carro para a cadeira e da cadeira para o carro; da cadeira para a cama… Era impossível fazer coisas simples em casa, como tomar banho sozinho, me trocar”. Há dois anos e meio passou por um acidente de moto que mudou tudo, mas, como ele mesmo diz, o esporte mudou ainda mais. Com comprometimento no tronco, até o equilíbrio aumentou. “Quando vim para cá, tinha dificuldade até de tocar a cadeira. Adquiri toda essa mobilidade, mudei o jeito de me locomover, desço degraus e não preciso mais da prancha”, conta ele. “A pista ainda me causa medo, mas não um medo que paralisa, que me faz achar que é impossível. Eu faço. Dá um frio na barriga, mas a gente respira fundo e vai!”. Diego pesava 105 kg antes de praticar WCMX, hoje está com 89 kg e ainda trabalhando para perder mais 10 kg, além desses 16 que já mandou para a pista. “Antes da cadeira de rodas, eu era uma pessoa totalmente sedentária. Se você me chamasse para acordar cedo, eu inventava uma desculpa.

Valdir de Sousa Santos: “Precisei vir parar numa cadeira de rodas para começar um esporte radical”

Hoje em dia, se você me chamar para varrer um prédio, eu tenho coragem para isso, não sou desanimado como antes. Mudou totalmente minha visão diante da vida”. Denilson Cosme Cordeiro Lima, 43 anos, por outro lado, sempre foi muito ativo no esporte, inclusive antes do acidente – quando uma barra de ferro de um palco caiu sobre suas costas – e encontrou no Faca na Cadeira a parceria ideal para gastar sua energia e melhorar a autoestima. Há um ano no projeto, experimentou antes a natação e o basquete, no qual ainda continua.
“Estava parado em casa, triste com o que aconteceu, com depressão. Comecei a fisioterapia, fui para o esporte e hoje estou aqui. Eu costumava correr a São Silvestre e jogava futebol antes do acidente. Gosto da adrenalina que o esporte dá”. O atleta conta que ganhou mais agilidade e força. “As dificuldades que a gente enfrenta nas ruas são muitas. Faltam rampas, muitas ruas são de paralelepípedo, esburacadas, sem guia rebaixada. Encaro tudo isso com muito mais facilidade e maior segurança. Hoje em dia a gente pega metrô, trem, ônibus. Eu não sou um coitado. Mostro para mim mesmo que sou capaz”. E cair, cai? Cai. Machuca? Também. Segundo eles, nada sério nem grave porque usam equipamentos, contam com apoio de profissionais e fazem os exercícios de acordo com suas capacidades e habilidades.

Leandro Badi conta: “O mais engraçado é quando a gente chega numa pista e ninguém nos conhece. Quando alguém

Denilson Cosme Cordeiro Lima fazia atividades físicas antes do acidente. “Sempre gostei da adrenalina que o esporte dá”

cai, os instrutores e os outros cadeirantes ficam parados, às vezes até riem. É quando alguém chega desesperado e questiona se ninguém vai ajudar”. A ideia é essa mesmo: a pessoa se virar, ganhar força, tranquilidade para agir, independência e autonomia, tudo dentro das possibilidades e realidade de cada um. “Daí o cara se levanta sozinho, sai tocando a cadeira, em paz, e a pessoa se surpreende muito”, exemplifica Badi. “Acho que isso é o mais legal do esporte: mudar essa visão que as outras pessoas têm da pessoa com deficiência. Não queremos que você tenha dó. É uma vida normal, com desafios diferentes. Quebramos um pouco desse paradigma de que não podemos sair de casa, de ter que ser cuidadoso com tudo e ter todos ao nosso redor ‘cheios de dedos’ para conosco. A gente veio para chocar mesmo”. Para o skatista que soltou a frase do início da reportagem, fica a dica: ninguém sai andando, mas todo mundo aqui sabe levantar, brother.

 

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