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Liberdade sobre as rodas

Por: Taís Lambert / Fotos: Divulgação e Arquivo Pessoal

Recursos tecnológicos para melhorar a vida das pessoas cadeirantes são apenas uma parte da torturosa jornada pela igualdade

Liberdade sobre as rodas

“Calçadas são o maior desafio para quem anda de cadeira de rodas, sobretudo na minha cidade, São Paulo. Uma porcaria! Mas não deixo de rodar por aí de cadeira, mesmo já tendo caído algumas vezes”, conta Bruno Favoretto, 36 anos, jornalista, que, recentemente, ministrou palestra sobre suas viagens na Adventures Sports Fair, em São Paulo/SP. Não é novidade que as cidades brasileiras não são pensadas para o ir e vir da população com dificuldades de locomoção, seja por alguma deficiência, seja pelo envelhecimento. O direito mais básico cai em queda livre no vão do descaso das calçadas irregulares, da inacessibilidade ao transporte e a locais públicos, dos infindáveis degraus que desnivelam não só os trajetos como também as garantias de dignidade.

Para Teresa Costa d’Amaral, 69 anos, criadora e superintendente do Instituto Brasileiro dos Direitos das Pessoas com Deficiência (IBDD), do Rio de Janeiro, com o desenvolvimento das tecnologias de acessibilidade houve um grande aumento na possibilidade de vencer os inúmeros obstáculos para a inclusão da pessoa com deficiência, e não somente em aspectos arquitetônicos, mas também através do uso da eletrônica e da informática, dentre outras formas de superar as dificuldades existentes. “No entanto, a maioria das cidades no Brasil não incorporou esses avanços em seus serviços e espaços públicos, vias e transportes urbanos. Os governos, quando se interessam pelo assunto, ainda continuam pensando que acessibilidade é uma rampa ou o uso do símbolo internacional”, afirma. “Não existe meia acessibilidade: plataformas em ônibus sem funcionar corretamente, sem que o motorista esteja preparado para usá-las, sem que a calçada e o ponto de ônibus também sejam corretamente acessíveis, não resolvem o uso dos ônibus por cadeirantes”.

Tornar realidade a circulação de pessoas em cadeiras de rodas de maneira efetiva e segura deveria ser um compromisso para dar autonomia às pessoas, no limite de suas potencialidades. Na opinião de Teresa, “ainda não há, no Brasil, o reconhecimento da questão da pessoa com deficiência como uma questão social importante”. Para além da tecnologia, importa, antes, o respeito ao outro. “Não advogo apenas em causa dos 23,9% da população com alguma deficiência. Uma calçada minimamente asfaltada e plana também facilita a vida daquela sua tia cuja artrose a impede de vagar com a destreza de antigamente. Ajuda até o turista com suas malas ou quem engessou a perna…”, ressalta o cadeirante Bruno Favoretto, que ainda cita o Chile e seu programa Santiago Caminhável. “O país está planificando suas calçadas e a mania se espalhou por 48 municípios, algo muito visível, sobretudo na capital e em Viña del Mar. Não tem segredo: é um asfalto plano, cimentão mesmo, verdadeira festa da cidadania, com rampas adequadas de se encarar – por vezes, a calçada se nivela à pista de carro”, conclui. Veja, a seguir, alguns equipamentos, entre cadeiras de rodas convencionais, motorizadas, scooters, carro adaptado e elevadores de transferência que colaboram na locomoção, no acesso e na inclusão das pessoas com deficiência.

Ajustável e dobrável

Com uma linha completa de cadeiras de rodas, a gaúcha Ortomobil apresenta em seu portfólio a MA3: com estrutura de alumínio aeronáutico temperado, é totalmente ajustável e dobrável em duplo X. A cadeira possui apoio de braço tubular, freios bilaterais, apoio de pés removível e rebatível com regulagem de altura. Outros itens, como faixa de calcanhar, protetor de roupa de náilon com aba e pintura eletrostática com opção de 10 cores – entre elas o Craqueado e a Violeta Verniz – complementam a MA3, que pesa 19 kg e suporta até 120 kg. As rodas traseiras são de 24 polegadas e as dianteiras de 5 polegadas: as quatro rodas são removíveis com sistema quick release. Se necessário, ainda há os opcionais, como: apoio de cabeça, suporte de oxigênio e de soro, cinto pélvico simples ou em Y e rodas antitombo. A Ortomobil é uma empresa totalmente nacional, possui registro dos produtos no Inmetro e Anvisa e conta com uma linha completa para atender ao Sistema Único de Saúde (SUS) e licitações.

Tchau, estou saindo!

“Imagine como se sente uma pessoa que descobre uma solução de mobilidade que dá a ela total independência, como por exemplo, ir ao cinema sem precisar sem precisar levar ninguém com ela! Lembro-me da felicidade estampada no rosto do nosso primeiro cliente dizendo que uma das primeiras coisas que iria fazer era isso!”. Quem conta é Carlos Cavenaghi, diretor de engenharia da Cavenaghi, que lançou, em 2017, o Pegasus Ecosport, a primeira solução de veículo acessível totalmente desenvolvida no Brasil, que proporciona autonomia para motoristas em cadeira de rodas. Basta o usuário se aproximar da traseira do veículo e utilizar o controle que abre a porta e aciona a rampa de acesso.

Em seguida, em sua própria cadeira, o motorista entra no veículo até a posição de dirigir. Nesse momento, a cadeira de rodas é travada automaticamente, por meio de um sistema inteligente instalado no assoalho. “Nesta condição, o motorista só precisa recolher a rampa e fechar a porta traseira pelo controle remoto, ligar o veículo e dirigir com os comandos manuais instalados, simples assim!”, explica Carlos Cavenaghi, especialista em soluções veiculares para a pessoa com deficiência. Segundo ele, o Pegaus Ecosport é dividido em três partes: duas são personalizadas e uma é comum a todos os usuários. As partes personalizadas variam de preço de acordo com a necessidade e condição física de cada usuário. “Podemos dizer que os valores ficam entre R$ 48 mil e R$ 65 mil”.

Antes de optar pelo Ford Ecosport, a empresa estudou vários veículos. O modelo eleito deve-se a aspectos técnicos e comerciais: o carro possui uma direção muito leve, altura total compatível, estepe do lado de fora, câmbio automático, controle automático de velocidade dentre outras características técnicas e, também, uma grande aceitação do consumidor brasileiro. “Além de tudo isso, está dentro dos R$ 70 mil e pode contar com isenção total de impostos”, ressalta. Cavenaghi explica que foram muitos os desafios para desenvolver o projeto de adaptações dentro de um veículo de pequeno porte, além de provar para os órgãos máximos de trânsito sua viabilidade técnica e de segurança. O Pegasus tem capacidade de transportar mais três pessoas além do motorista cadeirante, mas nada como ir ao cinema sozinho: “Só quem vive isso na pele sabe o valor de um produto como este”, finaliza.

Comando simplificado, resposta rápida

Cadeiras motorizadas e scooters (triciclos ou quadriciclos) são extremamente práticos. Com entrega imediata para todo o país, a cadeira de rodas motorizada Charger, da Kapra Medical, ganha na aparência esportiva e na segurança, além de ser muito confortável. O assento anatômico conta com quatro suportes de sustentação, o banco é de fácil remoção, alto e automotivo com reclinação. Para os pés, o apoio é retrátil com ajuste de ângulo e altura, assim como os apoios de braços. Já as rodas (25,4 cm de diâmetro) são maciças e macias, com calotas cromadas e tração nas rodas centrais, o que confere mais estabilidade e melhor desempenho. As baterias seladas AGM são livres de manutenção e há espaço disponível para baterias de até 55 AH. A autonomia é de 23,3 km, a velocidade máxima é de 7,2 km/h e suporta até 158,7 kg. O comando fica na mão esquerda ou na direita. A cadeira sai por R$ 12.800.

Da mesma grife, o quadriciclo Dublin Lumina 4 garante conforto. Com painel de controle simplificado, assento giratório 360°, dobrável e manche da direção ajustável, com receptáculo para o cabo do carregador, ainda inova com cesta embaixo do assento. Sua desmontagem não requer uso de ferramentas e a carga da bateria pode ser efetuada sem estar conectada à scooter, já que é removível. A autonomia é de 30,6 km, a velocidade é de até 8 km/h e tem capacidade para até 136 kg. Sai por R$ 9.700.

Livre e radical

Criar um equipamento capaz de transformar qualquer cadeira de rodas em um triciclo elétrico. Este era o sonho de Júlio Oliveto que, ao lado do irmão Lúcio Oliveto, criou a Livre – Soluções em Mobilidade. Em 2015, o Kit Livre foi lançado para o mercado: atualmente, são sete tipos de kits, sendo um manual, que leva o nome de Radical Hand. Com ele, é possível transformar qualquer cadeira de rodas convencional em uma hand bike. Os outros seis são motorizados e elétricos: o Economy, o Standard e o Mini percorrem uma distância de, aproximadamente, 20 km com uma carga de bateria e chegam a 20 km/h. Já o modelo Pro, que também faz 20 km com uma carga de bateria, é mais rápido – 25 km/h. Os modelos de kit Radical (com suspensão reforçada) e Chopper percorrem a mesma distância de 20 km com uma carga de bateria, mas são os mais rápidos de todos: chegam a 30 km/h. Este último modelo é customizado para quem não dispensa estilo.

Com exceção do Kit Economy, que traz bateria de chumbo, todos os outros têm bateria de lítio com diferentes potências, mas que, na hora de carregar, precisam do mesmo tempo: quatro horas. Todos os kits se adaptam em qualquer cadeira de rodas convencional, seja de estrutura em X ou monobloco. Feitos sob demanda, a necessidade do cliente é o principal orientador. Guidão tetra, freios hidráulicos e acelerador, por exemplo, são adaptados de acordo com as necessidades do usuário. Os preços variam de R$ 3.990 a R$ 11.990.

“Mude sua perspectiva”

No vídeo, o rapaz em cadeira de rodas se levanta e vai até a geladeira. Abre a porta, pega a jarra de suco, vai até o balcão e serve o amigo. Abaixa-se para pegar um guardanapo na gaveta do armário. Depois dirige-se para a sala, seleciona um livro na parte de cima da prateleira e se senta no sofá. Não é um devaneio: ele faz isso a bordo do Tek RMD. Na tradução livre, a sigla significa Dispositivo de Mobilização Robótica. Com o equipamento, a pessoa cadeirante pode ficar de pé de maneira independente e autônoma por meio de um sistema de suspensão com mecanismo de mola a gás, que equilibra o peso do usuário.

A Matia Robotics, empresa americana focada em melhorar a qualidade de vida das pessoas com deficiências de locomoção, é a criadora do Tek. Seu controle remoto também permite que o usuário “se livre” do dispositivo. Ele pode sentar no sofá, na cadeira do escritório ou deitar na cama, mandar o Tek RMD embora e trazê-lo de volta com o controle remoto quando necessário. Em março deste ano, o dispositivo passou a ser fabricado em Salt Lake, Utah, nos Estados Unidos. Segundo a empresa, o Tek RMD não é uma alternativa para cadeiras de rodas, mas uma plataforma de mobilidade totalmente nova que reinventa completamente o modo de movimentação de indivíduos com paraplegia e outras deficiências de locomoção.

Para se molhar

Indicado para uso residencial, em clubes, hotéis, clínicas, condomínios, academias e spas, o guincho de piscina, também conhecido como elevador de transferência, ou elevador para piscina, é fundamental para garantir a acessibilidade da pessoa que usa cadeira de rodas às mesmas oportunidades de lazer – ou de exercícios de reabilitação – sem que terceiros a carreguem no colo. Da paulistana Cajumoro Equipamentos Médicos, o guincho ocupa pouco espaço e pode ser fixado na parede, no chão ou em base móvel. A cadeira submersível é acionada por meio de um sistema elétrico e o guincho, produzido em aço inoxidável e desmontável, tem capacidade para suportar até 150 kg. Como a fabricação é própria, a empresa personaliza e adapta o dispositivo de acordo com as necessidades e o ambiente. No portfólio da empresa estão os modelos Ipanema, Peruíbe, Camburiú, Guarujá e SPA-600 (para piscinas, jacuzzis e ofurôs com borda elevada).

Para o alto e avante

Ah, as escadas… Sempre um empecilho para tantos de nós. A mineira Cefep trouxe para o Brasil o carro escalador de escadas DW11, utilizado para subir e descer escadas com cadeirantes em sua própria cadeira de rodas. Como se trata de acessibilidade assistida, tal como o guincho de piscina, necessita do auxílio de uma pessoa para percorrer o percurso da escada. Muito utilizado em locais onde elevadores e plataformas não se adaptam, o equipamento acaba sendo uma solução para empresas que precisam se adequar à legislação de acessibilidade. O DW11 suporta até 130 kg, possui esteiras de borracha antiderrapantes e também acopla com segurança as cadeiras de rodas motorizadas.

 

Para transformar tudo, um prêmio de US$ 4 milhões

A Toyota Mobility Foundation, em parceria com o Challenge Prize Centre da Nesta, lançou o primeiro “Desafio Mobilidade Ilimitada” no fim do ano passado. O objetivo é aproveitar o pensamento criativo de equipes com conhecimento em engenharia, software, design e ciência de dados para criar dispositivos que permitam maior independência e mobilidade das pessoas em cadeiras de rodas. A competição premiará os vencedores com US$ 4 milhões, cujos projetos serão capazes de mudar a vida dessas pessoas. “É uma jornada de três anos que será concluída em Tóquio, em 2020, em que as maiores mentes da tecnologia, do design e da engenharia, de todos os cantos do mundo, competirão para tornar o meio ambiente e a sociedade mais acessíveis a pessoas com paralisia dos membros inferiores. Sabemos que ainda não temos soluções: o desafio é trabalhar com quem pode ajudar a desenvolvê-las”, afirma Ryan Klem, diretor de programas da Toyota Mobility Foundation.

Um dos embaixadores do Desafio é ninguém menos que August de los Reyes (na foto), doutor pela Universidade de Harvard e membro da Royal Society of Arts, que lidera as equipes de design e pesquisa de produtos no Pinterest. Como ex-diretor da Xbox Design, August passou mais de uma década na Microsoft, onde ajudou a criar interfaces multi-touch pioneiras, novas maneiras de medir emoções e, mais recentemente, inovou o Design Inclusivo na área digital. Saiba mais em Mobility Unlimited

 

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