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Superação

A concha e a pérola

Por: Geraldo Nogueira, Subsecretário da Pessoa com Deficiência no Município do Rio de Janeiro

Foto: Shutterstock

Ainda era cedo quando Jarbel entrou no quarto, acordou seu marido e lhe fez um sinal. Gobom sorriu, pulou da cama e beijou-a na boca. Ela desvencilhou-se de seus braços e fez-lhe sinal de que estava atrasada para ir à escola, enquanto seu branco sorriso se destacava em contraste com a cor de sua pele. Gobom lhe sorriu de volta e falou-lhe algo, provocando a insatisfação de Jarbel que insistia com sinais lembrando-lhe de sua surdez.  Ao sair apressada, Jarbel virou-se para o marido e, por sinais, lhe disse que o amava intensamente e que nada a faria desistir desse amor. Gobom mandou-lhe beijos, enquanto Jarbel, sorrindo, saiu apressada.

A Escola Jardim do Amanhã, para crianças surdas, ficava a poucas quadras de sua casa e funcionava em um antigo sobrado que, no passado, havia sido a moradia do famoso escritor Haitiano que se tornou surdo e achou por bem fundar a escola especializada. Naquele dia, havia muito trabalho na escola, pois visitas importantes vindas do Brasil estariam lá. Como a Professora Jarbel teria que preparar os alunos e as salas de aula para receber os visitantes, precisava correr para dar conta de todos os afazeres. Algumas crianças brincavam na entrada principal da escola e, ao verem a professora chegando, correram ao seu encontro para, agarrados à sua saia, subirem os dois lances de escada que levavam às duas salas superiores.

Enquanto se dirigia à mesa dos professores para deixar seu material, observou que alguns alunos faziam o mesmo, indo na direção de suas carteiras. Foi neste momento que Jarbel percebeu um tremor, fazendo com que os objetos balançassem e as crianças cambaleassem. Por sorte, um dia antes, Jarbel havia lido um artigo científico sobre terremotos, por isso sua reação foi imediata. Gesticulou para os alunos, instruindo- -os para que deixassem a escola o mais rápido possível. Corram! Corram! Vão para a rua…saiam! Saiam! Gesticulava em desespero enquanto puxava um aluno que tentava organizar seu material. Quando lhe colocou para fora, sentiu o chão ceder sob seus pés, enquanto uma pesada coluna de concreto tombava a centímetros de seu ombro esquerdo e uma nuvem de poeira cegava sua visão. … Fazia um profundo silêncio quando Jarbel abril seus olhos. Um silêncio que sua surdez jamais havia se defrontado. Uma quietude que a apavorava. Onde estou? O que aconteceu? Sua mente fazia perguntas, mas não encontrava as respostas. Seus olhos pesavam e um sono incontrolável lhe dominava.

Lá fora, já fazia alguns dias que Gobom procurava desesperadamente pela mulher. Por várias vezes havia estado nos escombros da escola. Com um pedaço de cano de metal nas mãos, batia nas sobras de concreto, desejando que as vibrações do metal encontrassem Jarbel, levando-lhe uma mensagem de esperança e ânimo. Usando as próprias mãos, Gobom cavou grande quantidade de entulhos, sem, contudo, obter sinal de vida de sua mulher. Seus pedidos de ajuda eram em vão, pois todos os que o viam ali sobre os restos da escola achavam sua atitude desesperada e sem propósito. Uma semana havia se passado, quando sua mente encontrou um caminho. Precisava de ajuda e a mentira seria o único jeito para consegui-la.

Seguiu cavando até que uma pequena equipe de TV, composta por um repórter e dois auxiliares, se aproximou, quando um dos rapazes lhe perguntou por que estava cavando. Imediatamente, Gobom respondeu que iria salvar sua mulher. O repórter perguntou-lhe como ele sabia que sua mulher estava ali, viva, sob os escombros. Gobom esforçou-se para dar credibilidade às suas palavras. Virando- -se em direção ao repórter, disse: eu a ouvi pedindo socorro! Um dos rapazes da equipe saiu em disparada e, poucos minutos depois, estava de volta acompanhado de alguns agentes estrangeiros especialistas em resgate, dando-se início a uma frenética escavação. A cada novo membro voluntário que aderia ao trabalho de resgate, lhe era informado que tinham ouvido os pedidos de socorro de uma mulher. Muitas horas de árduo trabalho tinham se passado, até que uma mão projetada por uma fresta entre lajes dos escombros foi avistada pelos socorristas. Gobom reconheceu a aliança no dedo esquerdo de sua mulher. Abrindo caminho entre os voluntários, conseguiu chegar até o local e tocou a mão de Jarbel, fazendo-lhe suave pressão. Uma corrente de amor, emoção e segurança correu pela mente de Jarbel, despertando-a de um pesadelo sem imagens.

Sua mente atordoada esforçou-se para lembrar-se onde estava. O terremoto! As crianças! Gobom! Uma sensação de medo se misturou a uma energia de vida que a fez despertar-se completamente. Seu corpo estava preso e não tinha como se movimentar, tentou apalpar para identificar onde estava. Foi quando percebeu que havia uma mão lhe fazendo suave pressão, um toque agradável, familiar. Seria Gobom? De repente reconheceu que aquele toque íntimo era dele, pois ninguém mais sabia daquela brincadeira que só faziam entre eles. Gobom havia colocado sua mão fechada, em punho, sobre a mão espalmada de Jarbel, forçando-a, em seguida, a fechar seus dedos em volta de seu punho. Desde o tempo em que namoravam no portão daquela mesma escola, da qual agora Jarbel se encontrava sob os escombros, Gobom fazia essa brincadeira dizendo que seu punho dentro da mão de Jarbel significava a proteção que recebia de seu amor, que o guardava dos perigos como uma concha protege a pérola. E que a pérola só existia por causa da concha, pois sem esta nada seria. Jarbel apertou-lhe o punho com intensidade, respondendo à brincadeira, como sempre fizera, significando que não o deixaria sair da concha, pois que era uma pérola muito preciosa. Com um movimento de excitação e uma expressão de alegria estampada em seu rosto, Gobom levantou a cabeça para dizer a todos que sua mulher estava bem.

Um agente socorrista, que parecia estar no comando da operação de salvamento, perguntou-lhe como tinha tanta certeza disto, pois ninguém havia respondido aos chamados que fizeram. Gobom excitado, pulando e gesticulando, disse-lhe que ela havia respondido à sua brincadeira. O homem nada entendeu, mas achou que, naquele momento, isso não tinha importância. Salvar vidas! Isto era sua missão. Algumas horas se passaram até que um branco sorriso surgisse num rosto coberto por um pó cinzento. Enquanto sorria, os olhos de Jarbel procuravam por Gobom, que, ansioso, também lhe sorria. Percebendo a ansiedade do marido, Jarbel procurou acalma-lo fazendo-lhe sinais de que estava bem. Por fim, fez-lhe sinal prometendo eterno amor. A este sinal, todos entenderam! O que provocou uma sucessão de aplausos e gritos de comoção! Enquanto isto, o líder das escavações lançava um profundo e emblemático olhar para Gobom, pois havia compreendido que o amor se salvara, renascendo das cinzas como uma fênix flamejante que emerge do pó para lançar-se no azul do céu.

Por fim

Conto dedicado ao Povo Haitiano, à ativista Zilda Arns e em memória das 200 mil vítimas do terremoto catastrófico ocorrido em 12 de janeiro de 2010.

 

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