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Programas na TV e na internet buscam recursos para público com deficiência

Ângela Patrícia, Fernanda Honorato e Juliana Oliveira: atração inclusiva

RIO — Era um dia qualquer de gravação do “Programa Especial”, da TV Brasil/EBC, e um entregador de pizza bateu à porta da produtora responsável pela atração. Antes de ir embora, conferiu o elenco e os técnicos que passavam pelo estúdio — entre eles, uma pessoa cega, outra muda, um homem paraplégico, uma mulher tetraplégica e uma pessoa com síndrome de Down.

— Ele comentou: “Que lugar diferente!” — recorda Ângela Patrícia Reiniger, diretora do programa. — Para nós, a convivência entre pessoas tão diferentes é normal. Esperamos que um dia a sociedade não sinta este estranhamento.

O programa dirigido por Ângela Patrícia está há 13 anos no ar. Até agora, mais de 600 episódios já foram exibidos. Apresentado por Juliana Oliveira, que é tetraplégica, e com reportagens de Fernanda Honorato, que tem síndrome de Down, a produção tem como bandeira a inclusão de pessoas com deficiência.

A diretora penou por quase uma década até conseguir uma emissora e a infraestrutura necessária para colocar no ar o “Programa Especial”. Além de dedicar as reportagens exclusivamente a pessoas com deficiência, o que já era uma ideia ousada, resolveu colocar essas mesmas pessoas em postos de destaque da produção. Para isso, deu ainda na primeira temporada a vaga de apresentadora a Juliana e, depois, chamou Fernanda para comandar as matérias.

— Sempre me pareceu claro que as pessoas com deficiência deveriam ter protagonismo quando debatemos este assunto — conta Ângela. — Somos o primeiro e mais completo programa em termos de acessibilidade de comunicação, porque temos Libras (Língua Brasileira de Sinais), legendas em português e audiodescrição. É uma forma de abrir a mente do espectador, ensinando-o a apreender informações por outros recursos.

A missão do programa é delicada: destacar que as pessoas com deficiência não são, como define a diretora, “nem super-heróis, nem coitadinhos”. Falar sobre os aspectos positivos, mas sem negar as dificuldades. Levar informações objetivas, como tratamentos disponíveis, sem negligenciar o lado subjetivo.

Desde que começou a pôr a cadeira de rodas em frente às câmeras, Juliana percebeu uma transformação em seu cotidiano.

— Volta e meia sou abordada na rua por pessoas que não têm ninguém na família com deficiência — conta. — O programa atingiu um público que sequer era previsto. E eu também passei por uma transformação pessoal. Nunca pensei em participar de movimentos de inclusão, mas agora faço um doutorado na área.

Já Fernanda foi descoberta em uma reportagem feita em uma festa organizada por pessoas com síndrome de Down. Sua participação agradou tanto que ela foi convidada para fazer um teste. Aprovada, tornou-se responsável pelas matérias na rua.

— Quando nasci, minha mãe tinha uma enciclopédia que comparava pessoas com síndrome de Down a bestas. Ela disse que eu nunca seria uma idiota — lembra Fernanda. — Entrevistei personalidades como Marília Gabriela, que é um ídolo para mim, e também Maria Bethânia, Chico Buarque e muitos atletas paralímpicos, como o nadador Clodoalvo Silva.

A repórter se divide entre o programa, o posto de rainha de bateria da escola de samba inclusiva Embaixadores da Alegria, que abre o desfile do Sábado das Campeãs na Sapucaí, e começou a escrever sua autobiografia.

Uma telinha para os surdos

O “Programa Especial” não é o único pensado para pessoas com deficiência. Outro destaque é a TV Ines, emissora web criada há quatro anos pelo Instituto Nacional de Educação dos Surdos e pela Associação de Comunicação Educativa Roquette-Pinto (Acerp).

Surda desde os 2 anos de idade por causa de uma meningite, Clarissa Guerretta ficava inquieta ao assistir a telejornais quando pequena. De minuto em minuto, perguntava ao pai o que as pessoas na tela estavam dizendo.

— Ele respondia para eu esperar o dia seguinte e ler a notícia no jornal — lembra Clarissa, hoje aos 39 anos. — Acabei adquirindo o hábito de ler jornal impresso, mas me sentia cada vez mais solitária. A TV Ines foi como um milagre para a comunidade surda.

A emissora é a primeira TV do Brasil — e a quinta do mundo — completamente pensada para atender surdos. Há pouco mais de um ano, a webTV lançou seu primeiro telejornal, o “Primeira Mão”, apresentado semanalmente por Clarissa e por Aulio Nóbrega, pedagogo surdo de 40 anos.

Esta semana, poucos dias após a redação do Enem abordar os desafios para a educação de surdos no país, a TV Ines lançou o aplicativo do “Primeira Mão” para celular, disponível nas lojas virtuais da Apple e do Google.

Roteirista do "Primeira Mão", a jornalista Roberta Savedra junto a uma tela que mostra o programa

Nos programas da TV Ines, a lógica à qual a maioria das pessoas está acostumada é invertida: quem aparece grande na tela é a pessoa que se comunica em Língua Brasileira de Sinais (Libras), e, se há uma entrevista com algum ouvinte, o espaço no vídeo é dividido meio a meio. Há sempre áudio feito por intérpretes — como se os apresentadores fossem dublados. E todos os programas têm, ainda, legendas em português, que ajudam especialmente os surdos oralizados e implantados.

— Cerca de 70% da compreensão de um surdo vem da expressão facial, mas como os surdos vão entender claramente os sinais se o rosto de quem faz a tradução em Libras aparece tão pequeno no canto da tela, espremido em uma caixinha? — questiona Roberta Savedra, jornalista e roteirista do “Primeira Mão”, que nasceu surda, usa aparelho auditivo que recupera boa parte de sua audição e sabe falar tanto Libras quanto português.

O processo para levar o “Primeira Mão” ao ar é bem diferente de telejornais comuns. O programa é exibido às quintas-feiras, mas as pautas começam a ser definidas já na segunda. Os roteiristas escrevem o texto em português; os intérpretes e os apresentadores fazem a versão desse texto para Libras, de forma que possa ser lido no teleprompter; depois, é inserida a legenda e o áudio sobre a gravação. Por conta da quantidade de trabalho, o programa não é diário.

Foi com esse telejornal inédito que muitos surdos passaram a entender os conceitos de “Lava-jato” e de “laranja”, conta Clarissa.

— São expressões que, se forem simplesmente traduzidas para Libras, não farão sentido. Os surdos achavam que se tratava de lavagem de carros e da cor laranja. Não entendiam que tinha a ver com política e com corrupção. No nosso noticiário, nós passamos a explicar e contextualizar esses pontos — destaca.

Aulio Nóbrega, apresentador do "Primeira Mão", é surdo desde os dois meses de idade, por causa genética

Ao longo deste ano, foram muitas as vitórias para a equipe do telejornal, entre elas a ida de Aulio, o apresentador, ao Rock’n Rio com uma mochila vibratória, que permitia que ele sentisse o ritmo das músicas.

— Foi uma experiência interessante do ponto de vista pessoal, mas também valiosa para mostrar aos telespectadores surdos que vale a pena ir a shows de música, mesmo não ouvindo. É possível ter uma sensação única — diz ele.

 

Por: Clarissa Pains e Renato Grandelle
Fonte: http://blogs.oglobo.globo.com/to-dentro/post/programas-na-tv-e-na-internet-buscam-recursos-para-publico-com-deficiencia.html (Acesso em: 21/11/2017)

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